fbpx

“Se um personagem meu tem que morrer, ele morre”

21 de abril de 2021

Por Marina Vidal (*)

O Sempre Um Papo segue com a programação de 2021, ano que comemora 35 anos de realização ininterrupta, realizando uma série de encontros com respeitados autores da atualidade. No dia 20 de abril, o convidado foi o jornalista e escritor  Marçal Aquino para o lançamento do romance policial “Baixo Esplendor” (Companhia das Letras). A conversa foi mediada por Afonso Borges e contou com a participação do músico e escritor Tony Bellotto, autor de diversas obras de gênero policial, incluindo “Dom”, que virou filme. O papo contou com intérprete de Libras, sendo transmitido pelo Youtube, Facebook e Instagram do Sempre Um Papo. Esta foi mais uma edição do projeto que está acontecendo de forma virtual, devido à pandemia do Covid-19.

Marçal Aquino retorna à cena literária depois de 16 anos com “Baixo Esplendor”, uma prosa ágil e intensa. “O Marçal tem essa capacidade de fazer a gente ficar preso ao livro, não conseguir largar e, apesar de ser um mestre da literatura policial, pois esses personagens dele são criminosos, matadores, policiais, o que sinto nesses dois últimos anos dele, com esses 16 anos de intervalo, é que realmente ele está se aprofundando muito em narrar as histórias de amor. E, no ‘Baixo Esplendor’, a gente não sabe o que segura mais a atenção, se é a trama policialesca do crime ou se é a história de amor que conduz a narrativa do protagonista”, analisou Tony Bellotto. Para ele, o livro de Aquino é muito envolvente por causa da forma que é narrado, apresentando essas idas e vindas cronológicas. “Da para sentir o prazer que Marçal teve ao escrever o livro. A gente se sente envolvida, vemos o tempo que ele teve, toda a condição de ungir a arquitetura desse livro”, completou Bellotto.

Marçal conta que a ideia para a elaboração dessa obra o esbarrou. “Eu tinha parado um livro que é um romance histórico, tinha quase 200 páginas, que eu gastei seis anos escrevendo e eu achei que no final eu deveria me desligar. E eu fiquei seis meses lendo, nunca consigo escrever procurando o livro, o livro esbarra em mim. Então, eu esbarrei em uma cena e escrevi essa cena, que nem é o começo de `Baixo Esplendor`, ela está no meio. Entendi que ali tinha alguma coisa que me interessava”. Marçal enxergou na década de 70 a oportunidade porque essa cena se passava em uma época em que não haviam sido inventados os meios de comunicação da modernidade e que foi um período que ele viveu. 

Na época, o autor estava fazendo pesquisa para uma série da Globo e conversou com um agente de inteligência. “Esbarrei, sem querer, em um agente da inteligência do trabalho infiltrado, uma pesquisadora me colocou em contato com ele, e eu passei uma tarde muito agradável com ele contando histórias e o modus operante do pessoal infiltrado. Foi uma injeção de ânimo no livro para mim, porque o que eu estava imaginando era real. Claro, que contou também o bom senso dos anos que eu conheci enquanto repórter. Então, eu resolvi examinar isso sem exagerar na questão do tempo”. 

A Ditadura, no obra, fica em plano de fundo, pois não era o foco do autor nesse livro. “O que me interessou em primeiro momento foi, o que era o ambiente da marginalidade nesse cenário repressivo patologicamente paranoico, eu queria examinar a bandidagem. E depois a história de amor. Em um certo momento do livro eu entendi que a história de amor era um dos eixos do livro, talvez o principal”.

Tony Bellotto contou várias cenas do livro que o intrigaram. “Tem um detalhe legal que você nunca revela o nome verdadeiro do Miguel, quando ele larga o nome de guerra. E mesmo quando ele fala o nome dele para os outros personagens a gente não ouve com esse nome. Isso é muito interessante também porque guarda um mistério do personagem. Você fica muito curioso para saber o nome. Esses pequenos detalhes são muito importantes para envolver o leitor”. O agente que Marçal conversou, o autor não sabe seu nome, até hoje. “Então, eu olhei para o meu personagem, se ele tivesse nome ele me diria”.

Os personagens pensados e delimitados pelos autores convidados também integraram a discussão. Para Marçal, o escritor tem completo domínio sobre os personagens e não o contrário, como muitas pessoas acreditam. “É ilusório o controle que fazemos sobre os personagens. O autor é livre na medida da coerência do personagem, tem alguma coisa que o personagem não faz, senão ele não é um personagem, tem uma hora que você se vê obrigado a fazer certas coisas em nome da verossimilhança, em nome da coerência ou, eventualmente, da incoerência do personagem. Você tem controle sobre a narrativa e é o que eu sempre digo: se um personagem meu tem que morrer, ele morre”, constatou Marçal. Tony completou dizendo que os personagens tomam atitudes próprias no decorrer da escrita. “Não adianta você ficar planejando muito um livro porque o gosto de escrever é aquele momento que você vai escrevendo, a coisa vai acontecendo ali na sua frente, senão não tem graça”. 

Acompanhe o encontro na íntegra pelas redes sociais do projeto, no Instagram e Facebook e no canal do Sempre um Papo no Youtube, com acesso pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=CQaicDDbbvY

FRASES:

“Eu nunca consigo escrever procurando o livro, o livro esbarra em mim”. – Marçal Aquino, 20/04/2021

“Existe uma distância enorme da imaginação até a página em branco”. – Marçal Aquino, 20/04/2021

“Toda solidão nunca é suficiente para um escritor”. – Tony Bellotto, 20/04/2021

“Na verdade, em boa parte do tempo, aquilo que você vislumbrou brilha mais do que aquilo que você consegue levar para as pessoas”. – Marçal Aquino, 20/04/2021

“Toda adaptação nada mais é do que uma leitura que se faz de um livro, em uma outra linguagem, que é o audiovisual. Logo, não tem que se falar de fidelidade”. – Marçal Aquino, 20/04/2021

“Tem certos odores que pertencem só ao reino literário”. – Marçal Aquino, 20/04/2021

“O cinema tem uma outra mágica, que é uma mágica maravilhosa, mas a literatura é outra coisa”. – Marçal Aquino, 20/04/2021 

(*) – Estagiária sob supervisão de Jozane Faleiro

[fbcomments]