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Revivendo vozes sentenciadas

1 de abril de 2021

Texto: Marina Vidal – estagiária sob supervisão

O Sempre Um Papo segue com a programação de 2021, ano que comemora 35 anos de realização ininterrupta, realizando uma série de encontros com respeitados autores da atualidade. No dia 31 de março, o convidado foi o escritor Lira Neto para o lançamento do livro “Arrancados da Terra – Perseguidos pela Inquisição na Península Ibérica, refugiaram-se na Holanda, ocuparam o Brasil e fizeram Nova York” (Companhia das Letras). A conversa foi mediada pelo jornalista Afonso Borges, sendo transmitido pelo Youtube, Facebook e Instagram do Sempre Um Papo. Esta foi mais uma edição do projeto que está acontecendo de forma virtual, devido à pandemia do Covid-19. 

Lira Neto conta que, no processo de produção da obra, mudou-se para Portugal com a família para realizar a investigação. “Foi uma pesquisa, uma consulta e uma imersão nesse cenário da Península Ibérica, os arquivos estavam todos no Arquivo do Tombo em Lisboa. Era um projeto que eu vinha alimentando há muito tempo, era um desejo antigo fazer este livro, sobre esse grupo de judeus que viveram, boa parte da vida, à deriva, sendo alvo de perseguições das mais variadas espécies”. 

Lira explica que, diante de tanta documentação, sua preocupação era encontrar grandes personagens. “ Não há uma boa narrativa sem bons personagens. Eu precisava identificar na documentação da época indivíduos que pudessem contar a história da inquisição dos judeus que aconteceu na Península Ibérica; na Holanda, onde buscam refúgio, depois no Brasil e partem para outros destinos como a Nova Amsterdã, atual Nova Iorque”.

Os dois primeiros personagens que o autor identificou foram judeus, pai e filho, que fugiram da inquisição em Portugal para Holanda em busca de refúgio. “O pai foi preso e torturado, denunciou outras pessoas da família e teve a pena reduzida, em vez de ser levado à fogueira, ele é condenado ao uso perpétuo do traje da infâmia, que era uma túnica amarela que identificava aqueles que, tendo sido julgados pelo Santo Ofício, eram reconciliados com a Igreja. Essa reconciliação era um absurdo porque tinha que usar uma túnica que o distinguia do resto da sociedade, fazia da pessoa um párea, um não homem, um não sujeito. E isso não restou outra alternativa ao personagem a não ser fugir com seu filho”. 

Para tentar traçar essas vozes, o autor mergulhou em um trabalho de pesquisa grande que contou com música, gastronomia, vestuário, moda e língua da época. “Depois de identificar esses personagens, eu precisava dar o devido contexto de cada um. Então, teve toda uma pesquisa paralela sobre o cotidiano dos lugares que são citados no livro, sobre a vida privada naquele momento histórico, como as navegações e o comércio transatlântico e transoceânico. Eu precisei estudar manuais de navegação do século XVII, precisei buscar como era uma viagem naquela época, o que as pessoas sentiam e o que um holandês sentia ao cruzar a linha do Equador em direção a América do Sul”. 

Para decifrar os textos da época o autor contou com a ajuda de uma historiadora e, no livro, em mais de 50 páginas, são citadas fontes que foram utilizadas. “É preciso recorrer aos dicionários daquela época para entender, inclusive, o sentido de algumas palavras porque as palavras não morrem, elas evoluem, elas ganham novos sentidos, elas perdem sentidos”.

Lira Neto lembra que, ao escrever essa obra, ele buscou trazer à tona aqueles personagens e suas histórias. “Propunha-me também compartilhar com leitores uma emoção, aquela mesma que eu mesmo experimentara no momento em que, vasculhando esses vestígios mortos, julgava ouvir novamente vozes extintas”.

Acompanhe a conversa na íntegra pelas redes sociais do projeto, no Instagram e Facebook e no canal do Sempre um Papo no Youtube, com acesso pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=mm07KElP0pY

FRASES:

“Não há uma boa narrativa sem bons personagens”. – Lira Neto, 31/03/2021

“Propunha-me também compartilhar com leitores uma emoção, aquela mesma que eu mesmo experimentara no momento em que, vasculhando esses vestígios mortos, julgava ouvir novamente vozes extintas”. – Lira Neto, 31/03/2021

“A história realmente é fantástica. Ela me fisgou tanto que eu mergulhei em documentos e, inclusive, descobri a minha própria ancestralidade. Acabei descobrindo que na minha árvore genealógica tem um bom número de pessoas oriundas da Península Ibérica que foram para o Brasil”. – Lira Neto, 31/03/2021

“O espectador acaba por se chocar com a ortodoxia da comunidade judaica instalada na Holanda”. – Lira Neto, 31/03/2021

“O primeiro personagem que me fascinou era um filho de um refugiado português, nascido em Portugal, crescido e educado na Holanda, que se torna um intelectual, um rabino, um homem do mercado editorial, o Manoel Dias Soeiro. Era comum aos portugueses que fugiam da península buscando refúgio, em qualquer um dos países, trocar de nome e de identidade”. – Lira Neto, 31/03/2021

“O primeiro personagem que aparece no livro é um simples vendedor de prego, um homem muito humilde e foi sentenciado na inquisição como praticante do judaísmo em segredo. Ele é preso, denunciado pela própria esposa, que por sua vez foi denunciada por uma sobrinha”. – Lira Neto, 31/03/2021

“Os que delatavam ganhavam a possibilidade de ter a pena atenuada”. – Lira Neto, 31/03/2021

“Essa reconciliação com a Igreja era um absurdo porque você tinha que usar uma túnica que o distinguia você do resto da sociedade, que fazia de você um párea, fazia de você um não homem”. – Lira Neto, 31/03/2021

“Eu precisava, não só dar uma visão fria desses documentos, mas tentar descobrir uma vida, essas vozes, fazê-las falar novamente”. – Lira Neto, 31/03/2021

“Tive o desafio de decifrar aqueles garranchos feitos tantos séculos atrás, e eu contei com a ajuda de uma amiga historiadora”. – Lira Neto, 31/03/2021

“As palavras não morrem, elas evoluem, elas ganham novos sentidos, elas perdem sentidos”. – Lira Neto, 31/03/2021

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