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Pérola negra do Alto Paranaíba

26 de março de 2021

Por Marina Vidal (*)

O Sempre Um Papo Araxá abriu a programação de 2021, ano que comemora 35 anos de realização ininterrupta, realizando uma série de encontros com respeitados autores da atualidade. No dia 25 de março, os convidados foram o escritor Tom Farias e a professora Leni Nobre (Araxá), para falarem sobre Carolina Maria de Jesus que acaba de receber, em homenagem póstuma, a concessão do título de Doutora Honoris Causa pelo Conselho Universitário da UFRJ. Esta foi mais uma edição em Araxá, viabilizado com o patrocínio da  CBMM, com recursos da Lei Federal de Incentivo à Cultura, da Secretaria Especial da Cultura do Ministério do turismo. O projeto está acontecendo de forma virtual, devido à pandemia do Covid-19. A conversa foi mediada pelo jornalista Luiz Humberto França, sendo transmitida pelo Youtube, Facebook e Instagram do Sempre Um Papo.

Carolina Maria de Jesus, nasceu em Sacramento (MG), mudou-se para São Paulo, onde trabalhou como catadora de papel na favela do Canindé e escrevia um diário narrando seu cotidiano. Ela foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas e a partir desse momento, começou a trilhar os passos como escritora, compositora, poetisa reconhecida, sendo uma das mais lidas do Brasil, com livros traduzidos em diversas línguas e milhões de exemplares vendidos. Mesmo 60 anos após sua primeira publicação, a autora é muito atual. “Carolina mudou o modo de ler e receber literatura no Brasil e mudou o modo de ler e entender a periferia”, lembrou Leni Nobre.

O jornalista Tom Farias, biógrafo de Carolina Maria de Jesus contou que a motivação para escrever o livro surgiu a partir da constatação da pouca informação sobre a vida da autora fora da favela e devido às expressões que definiam Carolina como ‘a poeta do lixo’, ‘escritora favelada’, do ‘chorume da literatura brasileira’. “Ela morou 12 anos na favela do Canindé e morreu com 62, isso quer dizer que ela morou 40 anos fora da favela. Então, não era possível deixar a Carolina com esse extrato apenas de favelada, até porque ela viveu de costas para a favela do Canindé, de onde ela queria mais sair na vida dela. Ela escreveu um livro para mudar a vida dela, ou seja, sair da favela”, afirmou o autor. 

Carolina Maria de Jesus vem se tornando cada vez mais popular na atualidade. Entretanto, uma informação sobre ela que pouco se conhece foi revelada por Tom Farias, no que se refere ao questionamento da obra dela por parte da Ditadura Militar. “Ela foi perseguida pela ditadura, há registros sobre a apreensão do livro ‘Quarto de Despejo’. Na véspera do golpe militar ela publicou um manifesto no jornal ‘A Última Hora’ na edição do Paraná, apoiando as reformas de base de João Goulart, que era amigo pessoal dela. Ela dizia que as reformas de base do Jango era a nova abolição do Brasil”. Na época, Carolina morava em uma casa luxuosa em Santana e ela se muda para uma casa onde não havia luz, portas ou janelas e o chão era de terra. “Na verdade, ela fugiu com medo da ditadura sobre ela”, deduziu Tom. 

Luiz Humberto França apontou para um detalhe da escritora: “A Carolina sempre sonhou em fazer sucesso com poesia e, na verdade, foi com a prosa, no ‘Quarto de Despejo’ que ela ganhou essa fama”. Segundo Leni, isso acontece porque no Brasil a poesia não é um produto bem consumido. “A gente consome poesia através da música popular, nós não compramos livro de poesia. A narrativa de Audálio Dantas sobre Carolina incentivou muito, porque a narrativa é um produto de consumo mais interessante”, acredita Leni. 

A partir da década de 1970, através das teorias multiculturais surgiram estudos que mostravam que as narrativas históricas não eram suficientes para dar conta do povo. “Um olhar sobre esses mini relatos passa a ser muito forte. E a obra de Carolina surge nesse contexto como um olhar legítimo, um olhar multicultural, um olhar que está atravessando uma fronteira de uma mulher que não teve escolarização, mas que consegue produzir uma obra legível. Os problemas dela de gramática, os problemas de escrita e reprodução da palavra em sua etimologia, não inferem em nada no recado que ela quer dar”, explicou Leni.

Tom Farias ficou muito contente por Carolina Maria de Jesus ser patrona do Fliaraxá 2021, pois será um grande espelho para ela. “Carolina veio como um divisor de águas, é preciso estabelecer um outro padrão do cânone no Brasil. Ela refunda a participação da mulher na literatura que vem do século XVIII com Rosa Maria Egipcíaca, que não chegou a publicar seu livro, pois ele desapareceu com a inquisição”. Segundo o escritor, Carolina abre uma grande porta por onde vai surgir ‘Carolinas e Carolinos’, como Conceição Evaristo, Elisa Lucinda, Miriam Alves, Eliana Alves Cruz, Itamar Vieira Júnior, Jeferson Tenório, Geovani Martins, Paulo Lins e alguns outros. “Por isso, nós temos que saudar essa mulher corajosa, que fez de tudo um pouco e sacrificou a própria vida para mostrar que era possível realizar um sonho, que era o sonho de escrever”. 

Para encerrar, Leni Nobre ressaltou o espaço ocupado por Carolina Maria de Jesus, uma mulher, negra e periférica. “Ela mostra as vísceras abertas da sociedade de tal forma que ao reler hoje alguns fragmentos de ‘Casa de Alvenaria’ eu tive vontade de recortá-los para citar para tentar convencer as pessoas de que é preciso olhar para a pobreza”. A professora acredita que Carolina seria, hoje, uma excelente parlamentar para denunciar o que está acontecendo na sociedade brasileira. “Ela é uma mulher poderosa, de fibra, que precisa que a gente se espelhe nela, é um modelo, é um exemplo, é a pérola negra do Alto Paranaíba”.

Acompanhe a conversa na íntegra pelas redes sociais do projeto, no Instagram e Facebook e no canal do Sempre um Papo no Youtube, com acesso pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=gtSwDVCA8cw

FRASES:

“Carolina Maria de Jesus mudou o modo de ler literatura no Brasil, de receber a literatura no Brasil. Mudou o modo de ler e de entender a periferia”. – Leni Nobre, 25/03/2021.

“Enquanto Maria Carolina de Jesus vivia uma pseudofama no Brasil, ela explodia no exterior”. – Tom Farias, 25/03/2021.

“A Ditadura Militar acabou de colocar a pá de cal na Carolina Maria de Jesus”. – Tom Farias, 25/03/2021.

“Carolina Maria de Jesus é uma mulher, mãe que faz todas as tarefas domésticas, cuida dos filhos e ainda cumpre uma agenda de escritora altamente solicitada”. – Leni Nobre, 25/03/2021.

“Os problemas de gramática de Maria Carolina de Jesus não interferem em nada no recado que ela quer dar”. – Leni Nobre, 25/03/2021.

“É uma geração muito grande de Carolinas e Carolinos, um patamar muito grande de abertura de Carolina Maria de Jesus”. – Tom Farias, 25/03/2021.

“Carolina sacrificou a própria vida para mostrar que era possível realizar um sonho, que era o sonho de escrever”. – Tom Farias, 25/03/2021.

“Carolina veio como um divisor de águas, é preciso estabelecer um outro padrão do cânone no Brasil”. – Tom Farias, 25/03/2021.

“Carolina Maria de Jesus é a pérola negra do Alto Paranaíba”. – Leni Nobre, 25/03/2021.

“Não tem nada singular como Carolina Maria de Jesus”. – Leni Nobre, 25/03/2021.

(*) – Estagiária sob supervisão de Jozane Faleiro

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