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Páscoa Vieira: uma história de inquisição, escravidão e luta

15 de dezembro de 2020

Texto: Marina Vidal – estagiária sob supervisão

O Sempre Um Papo recebeu a escritora e historiadora francesa Charlotte de Castelnau-L’Estoile e a historiadora e professora da Unicamp, Silvia Hunold Lara, para uma conversa sobre o Livro “Páscoa Vieira Diante Da Inquisição – Uma Escrava Entre Angola, Brasil E Portugal No Século XVII” (Bazar do Tempo), escrito por Charlotte. Esta foi mais uma edição do projeto que está acontecendo de forma virtual, devido à pandemia do Covid-19. A conversa foi mediada pelo jornalista Afonso Borges, no dia 15 de dezembro de 2020, sendo transmitida pelo Youtube, Facebook e Instagram do Sempre Um Papo.

O livro narra a história de Páscoa Vieira uma mulher negra angolana, do século XVII, que foi escravizada em seu país natal e vendida para um senhor no Brasil, onde é presa pela Inquisição sob acusação de bigamia, por ter casado com um escravo em Angola e um escravo em Salvador. “É uma história ordinária, não tem nada de especial. A gente não sabe muita coisa da vida dela, mas foi denunciada pelo próprio senhor à inquisição porque o primo dele que morava em Angola chegou em Salvador e falou para ele que sua escrava já era casada no país e o marido era vivo. A investigação durou sete anos. Ela foi presa e mandada para Lisboa, onde tem o processo”, relatou Charlotte.

A pesquisa de Charlotte que deu sustento para a elaboração do livro durou mais de dez anos. “Fiz uma parte da pesquisa no Brasil no arquivo eclesiástico do Rio de Janeiro sobre processos de matrimônios de escravos. Procurei na Torre do Tombo em Lisboa, pelo site, e achei o processo da Páscoa. Ele tinha mais de 100 páginas e para uma mulher escravizada do século XVII ter um processo desse tamanho é muita coisa. Então, decidi escrever uma história só sobre esse processo”. Ela tentou escrever mostrando a investigação do historiador. “Porque ele tem que imaginar a vida das pessoas que ele está pensando, mas sem fugir da documentação”.

Silvia Hunold Lara explicou que há mais documentação sobre os processos de inquisição referente a homens do que a mulheres. “Se para as mulheres já é difícil, para as mulheres de origem africana é mais difícil, porque não escreviam. Então, a documentação, que é essencialmente escrita, não tem testemunhos diretos para elas, é sempre o que se fala sobre elas”. Segundo ela, a documentação de Páscoa possui uma particularidade. “Aborda sobre a vida dela na África e em Salvador, como escrava em uma casa, e o modo como ela lida com toda essa situação porque ela não é uma mulher de ficar passiva diante desses elementos que vão compondo a experiência de vida dela. Isso não é tão fácil de encontrar nos arquivos”.

Charlotte explicou que várias testemunhas documentaram um pouco da história de Páscoa como jovens eclesiásticos, comerciantes, funcionários da coroa, soldados e esposas dos soldados. “A documentação da inquisição tem uma pressão muito forte nos acusados e como o processo conta o detalhe dos interrogatórios você vê a psicologia das pessoas, a maneira como atuam e reagem, então a gente tem a impressão de conhecer a Páscoa. Ela se apresenta diante dos inquisidores resistente, inteligente, forte, ela sabe responder e conhece as armadilhas dos inquisidores”.

Ao final do processo de escrita do livro, a autora fez uma descoberta importante sobre o processo da personagem principal. “Ela já tinha sido julgada e tinha seis ou sete páginas a mais no processo. Eu tive dificuldade para entender porque não era a mesma escrita. Na realidade, era um documento acrescentado pela Inquisição que pertencia ao Tribunal Eclesiástico de Salvador, era uma tentativa de dar provas que ela era solteira. E teve uma carta de um Padre dizendo que ela era solteira em Angola”.

Para encerrar, apesar de não ter revelado o destino final de Páscoa, Charlotte instigou a leitura do livro. “Posso dizer que no final tem a última carta do processo que foi escrita, não por ela mesma porque ela não sabia escrever, mas que ela pediu a alguém para escrever, com a vontade de onde queria acabar a vida dela”.

Essa conversa na íntegra pode ser assistida nas redes sociais do projeto, Instagram e Facebook e no canal do Sempre um Papo no Youtube, por meio do link: https://www.youtube.com/watch?v=SOp_JziqkUs

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