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“O livro infantil nunca é só para criança”

31 de março de 2021

Por Marina Vidal (*)

O Sempre Um Papo segue com a programação de 2021, ano que comemora 35 anos de realização ininterrupta, realizando uma série de encontros com respeitados autores da atualidade. Na cidade de Araxá, onde o projeto é realizado há 15 anos com o patrocínio da CBMM,  os convidados foram o professor e escritor Rafael Nolli e o ilustrador Ton Lima para o lançamento do livro “Sr. Bigodes Era o Seu Nome”, de autoria de Nolli e ilustrado por Ton. O encontro foi no dia 30 de março, com mediação de Luiz Humberto França, sendo transmitido pelo Youtube, Facebook e Instagram do Sempre Um Papo. Esta foi mais uma edição do projeto que está acontecendo de forma virtual, devido à pandemia do Covid-19. 

Rafael Nolli contou que o livro é baseado, até certo ponto, em uma história real de um amigo. “Eu pensei na história e em cinco minutos ela estava pronta. Eu tive uma experiência de uma amigo que tinha um gato chamado Wolverine e esse gato um dia trouxe uma surpresa para casa, isso há muito tempo. Ano passado, eu sentei para escrever, lembrei que o que acontece com o Sr. Bigodes é muito comum e escrevi a obra a partir dessa proposta”, disse Nolli. 

Para a ilustração, Nolli apresentou algumas características dos personagens, mas deixou Ton Lima muito livre para criar. “A construção foi fazer essa perspectiva da narrativa dentro de um único espaço aonde tudo acontece. A ideia era construir uma situação em que o leitor pudesse, de fato, perceber que tudo acontece dentro de um ambiente tenso e específico, que é a sala da casa”, lembrou Ton. Ele tentou traçar perfis dos personagens com os quais os pais também se identifiquem. “A ideia não era infantilizar as personagens e nem a parte gráfica, mas trabalhar com essa narrativa de identificação, da mãe que trabalha, que vai para a academia, e que pudesse ser um diálogo feito pelos pais para as crianças. Inclusive, a mãe tem uma tatuagem que é algo muito difícil de você ver em uma personagem de desenhos desse gênero”, disse o ilustrador. Nolli também ressaltou que o livro foi escrito pelos dois. “Duas pessoas pensam melhor do que uma. Eu me surpreendi com as questões que o Ton trouxe, só pedi uma coisa para ele: esse livro tinha que ter três cores porque toda a trama da história gira em torno desse gato ter três cores”. Para Ton, essa liberdade concebida para ele criar foi muito prazerosa. “A ilustração caminha junto com o texto, mas cria uma narrativa visual que tem um papel mais espontâneo, muito específico em relação ao direcionamento do texto e a criação dessas imagens mentais que vão ser costuradas pelo texto”.

O autor disse que sempre pensa nos adultos quando escreve seus livros, mesmo que eles sejam infantis. “O livro infantil nunca é só para criança, nós fazemos, muitas vezes, esses livros com a expectativa que seja lido também por adultos ou que esses adultos leiam esses livros também com as crianças, sejam os professores, sejam os pais lendo os livros com seus filhos. Então, eu coloquei algumas expressões que só um leitor já vivido vai entender e outras que só pessoas ligadas a algumas áreas iram captar. Por exemplo, em um dos capítulos do livro tem uma frase de uma música do Chico Buarque. E sempre tem um trechinho do João Guimarães Rosa, mesmo sendo um autor difícil, muitas vezes eu faço questão de ter essas citações porque eu sei que muitos adultos estarão lendo o livro”.

Ton Lima completa que, diante disso, apesar de ser um livro infantil, ele dialoga com vários públicos.  “É um livro que o adulto pode ler. A ideia era usar personagens comuns e que são fundamentalmente brasileiros, respeitando inclusive as relações étnicas e as relações do cotidiano, para que realmente a identificação não aconteça só pela história, mas também pela imagem. E, graças a essa maneira muito simples e objetiva, a construção das personagens dentro dessa história é um fio que conduz a todas para um desfecho surpresa, que se vocês quiserem saber, vai ser necessário pegar o livro nas mãos para poder saborear tudo isso que está sendo dito”, incentivou Ton.

Para encerrar, Nolli afirmou que esse livro foi pensado para ser lido tanto em casa, como para ser transformado em teatro na sala de aula. “A partir desse momento, esse livro já não é mais meu e do Ton, esses personagens que desenvolvemos e criamos, vai ser reinventado pelas pessoas mais uma vez e, porque não, mais dezenas de vezes e centenas de vezes, quem sabe?”. 

Acompanhe a conversa na íntegra pelas redes sociais do projeto, no Instagram e Facebook e no canal do Sempre um Papo no Youtube, com acesso pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=0GrlR98VgTs

FRASES:

“A ideia não era infantilizar as personagens e nem a parte gráfica, mas trabalhar com essa narrativa de identificação”. – Ton Lima, 30/03/2021

“O livro infantil nunca é só para criança”. – Rafael Nolli, 30/03/2021
“É um livro que o adulto pode ler”. – Ton Lima, 30/03/2021

“Duas pessoas pensam melhor do que uma”. – Rafael Nolli, 30/03/2021

“A ilustração caminha junto com o texto, mas cria uma narrativa visual que tem um papel mais espontâneo, muito específico em relação ao direcionamento do texto e a criação dessas imagens mentais vão sendo costuradas pelo texto”. – Ton Lima, 30/03/2021 

“Esse livro foi pensado para ser lido em casa e para ser transformado em teatro de sala de aula”. – Rafael Nolli, 30/03/2021

“Eu sei que quando eu e o Ton formos visitar escolas com esse livro, nós vamos ver pessoas interpretando a obra e vão ser interpretações que irão nos surpreender, porque a partir desse momento, esse livro já não é mais meu e do Ton”. – Rafael Nolli, 30/03/2021

“Publicar um livro agora é até um ato de rebeldia”. – Rafael Nolli, 30/03/2021

“Nós estamos tentando fazer e cumprir nosso itinerários, com dificuldades de acesso aos espaços, que antes tínhamos acesso ilimitado. E a venda de livros crescer é um indicativo que, nesse momento, a arte tem o seu papel”. – Rafael Nolli, 30/03/2021

“A literatura cumpre um papel importantíssimo que é o papel de levar um pouco de leveza, um pouco de distração, mas levar também o pensamento crítico, mostrar para as pessoas outras formas de entender o mundo”. – Rafael Nolli, 30/03/2021

“Eu acho e creio que nesse momento estar escrevendo esse livro, com a dificuldade, com a falta de tempo e todas as questões envolta, inclusive como publicar e distribuir um livro nesse momento, é uma mostra de que nesse país e nesse momento do mundo, a arte e a literatura têm um papel fundamental que não pode ser abandonado, independente de qualquer coisa”. – Rafael Nolli, 30/03/2021

“Estarmos lançando esse livro aqui é a prova de que não é possível passarmos por algo, como estamos passando, sem ter acesso à arte, à literatura”. – Rafael Nolli, 30/03/2021

“Para mim, estar criando nesse momento é uma forma de fugir um pouco dessa realidade que está nos esmagando”. – Rafael Nolli, 30/03/2021

“Nesse momento é muito importante que ressignifiquemos essa ideia da subjetividade social e meritocracias”. – Ton Lima, 30/03/2021

“Imagino que estamos discutindo de forma involuntária os nossos egoísmos”. – Ton Lima, 30/03/2021

“Essas circunstâncias todas terríveis talvez estão nos proporcionando também uma outra percepção sobre as pessoas e a arte”. – Ton Lima, 30/03/2021

“O meio artístico é o lugar onde nós temos possibilidade de fazer reflexões, desconstruções e ressignificados”. – Ton Lima, 30/03/2021

“Nós temos que compreender o papel que temos enquanto artistas e as instituições também enquanto responsáveis por tornar isso possível. Não se trata de manutenção econômica, se trata de dar as pessoas o que elas merecem: qualidade de vida. E eu acredito que o grafite oportuniza isso efetivamente porque ele está na rua”. – Ton Lima, 30/03/2021

“O grafite termina para o artista quando ele acaba o mural e, nesse momento, ele começa para as pessoas”. – Ton Lima, 30/03/2021

(*) – Estagiária sob supervisão de Jozane Faleiro

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