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“Nós temos meios de fazer com que o monstro fique um pouco menos monstruoso”

6 de agosto de 2020

Texto: Marina Vidal – estagiária sob supervisão

O Sempre Um Papo recebeu o escritor e jornalista Fernando Gabeira e o escritor francês Giuliano da Empoli para falarem sobre o livro recém lançando de Empoli, “Os Engenheiros do Caos – como as Fake News, as Teorias da Conspiração e os Algoritmos Estão Sendo Utilizados Para Disseminar Ódio, Medo e Influenciar Eleições” (Ed. Vestígio). Essa foi mais uma edição do projeto que está acontecendo de forma virtual, devido à pandemia do Covid-19. A conversa foi mediada pelo jornalista Afonso Borges, no dia 6 de agosto de 2020, sendo transmitida pelo Youtube, Facebook e Instagram do Sempre Um Papo.

O debate teve início com Giuliano da Empoli explicando quem são os engenheiros do caos. “São operadores políticos que introduziram uma nova maneira de fazer política ao importar para a política a lógica das redes sociais e das plataformas de internet e como que elas funcionam”. De acordo com o autor, as redes e plataformas digitais possuem um critério que não importa o que é ou não verdade, o que é real ou não, o que é coerente e o que não é. “Eles só se preocupam com uma coisa que é envolvimento. Eles só se preocupam se você entra no Facebook ou no Youtube, a única coisa que interessa às plataforma é que você permaneça ali, fique preso a ela e que você fique o mais entusiasmado possível. E eles vão dar tudo que eles precisam dar para que você se envolva e fique preso”, destacou.

Nas plataformas digitais e redes sociais existem algoritmos que, segundo Giuliano, direcionam a sua pesquisa e os tópicos que vão aparecer para você com base no seu histórico de uso. “Então, se você se envolve com fake news e violência, eles vão te dar isso também. Portanto, o conteúdo da mensagem não é o que interessa, o que importa para os engenheiros do caos é conseguir o máximo de apoio possível. E eles têm meios tecnológicos que permitem a eles fazer isso, que é descobrir em que cada grupo vai se envolver para maximizar aquele entusiasmo do grupo”, explicou o autor. Para ele, essa é uma dinâmica de caos pois não é só uma mensagem que vai unir todo o grupo. “Eles mandam mensagens múltiplas que vão entusiasmar todos no grupo e todos os grupos, aí eles agrupam esses grupos, o que não traz consenso, é uma explosão e caos, é isso que eles sabem fazer”.

Para o autor, nós temos meios de “fazer com que o monstro fique um pouco menos monstruoso” e, para combater o caos é preciso regular o algoritmo. “Nós não temos que aceitar a lógica do algoritmo: vocês não me entendem, vocês não sabem como eu funciono. Então, o que você está acostumado não funciona para mim e todos os regulamentos não se aplicam a mim porque eu sou o algoritmo”. Conforme discutiu Giuliano, o algaritmo funciona na lógica do excepcionalíssimo e não podemos aceitar. “Nós precisamos impor os fatos de que as leis da democracia, de liberdade, de integridade da pessoa, que a protegem de violência, de rótulos, regulamentos relativos a privacidade, também se aplicam ao algaritmo”.

O autor, no entanto, percebeu uma melhora. Ele diz que, há quatro anos, ninguém falava sobre o funcionamento do algoritmo e como ele pode nos manipular mas, agora, o assunto passou a integrar a discussão pública. “Eu sigo a mídia brasileira e vejo que esses assuntos, as fake news, as leis relacionadas às fake news, máquina do ódio, todos esses debates estão no centro do debate público”. Apesar da melhora, Giuliano ainda acredita que ainda há muita mudança a ser feita. “Eu acho que a gente está chegando lá, vai demorar um bom tempo, mas tomara que a gente não chegue lá tarde demais”.

Fernando Gabeira falou que muitos teóricos e pesquisadores se preocupam em tentar compreender como o populismo chega ao poder, mas que ele está “tentando teorizar quando que o populismo declina e desaparece, pelo menos momentaneamente”. O jornalista também fez uma análise referente à pandemia. “Eu acho que a pandemia foi um aspecto importantíssimo porque mostrou que não há soluções simples para problemas complexos, como Trump e Bolsonaro, que tiveram que responder com negação ou, então, com uma solução mágica que era a cloroquina”.

Essa conversa pode ser assistida nas redes sociais do projeto, Instagram e Facebook e no canal do Sempre um Papo no Youtube, por meio do link: https://www.youtube.com/watch?v=eAVCHdAYvzg&t=2168s

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