Muros Invisíveis: da Sala de Aula para a Praça Pública, por Mariana Lelis
Por Mariana Lelis
Certo dia, em uma aula de graduação, decidi provocar meus alunos com uma reflexão:
— Durante toda a vida de vocês, quantos médicos negros já os atenderam? E quantos juízes negros conheceram? Conseguem se lembrar de algum empreendedor de sucesso, amplamente divulgado pela mídia nos últimos meses?
O silêncio que se seguiu foi revelador. Depois de alguns segundos, vieram respostas tímidas: um ou nenhum médico em vinte e quatro anos de vida, nenhum juiz, mesmo entre estudantes do 10º período de Direito. Nenhum empreendedor negro foi lembrado. Então, lancei uma nova questão:
— E vocês acham isso natural?
Dessa vez, o silêncio foi ainda mais profundo. Até que um aluno, visivelmente intrigado, disse:
— Professora, eu nunca havia pensado nisso. Isso não é normal!
Esse diálogo, que se repete semestre após semestre, traduz muito do que podemos chamar de muros invisíveis. Não são barreiras físicas, mas estruturas sociais que silenciam reflexões e naturalizam ausências. Crescemos acostumados a não questionar o fato de que os negros — 56% da população brasileira, segundo o IBGE — continuam sendo minoria em espaços de destaque, como altos cargos do setor público e privado, médicos e empreendedores de impacto.
Como alerta Lélia Gonzales em Por um feminismo afro-latino-americano:
“No registro que o Brasil tem de si mesmo, o negro tende à condição de invisibilidade.”
A citação de Lélia traduz o que vimos em sala: uma sociedade historicamente estruturada sobre desigualdades raciais, que naturaliza a ausência da população negra em lugares de poder, reforçando muros invisíveis que dificultam o acesso a oportunidades e reconhecimento.
O diálogo em sala de aula é também um reflexo de dados, que muitas vezes passam despercebidos. Embora sejam maioria, os negros ocupam apenas 30% dos cargos de gerência e menos de 20% das funções de direção em grandes empresas. Na magistratura, um levantamento do CNJ e do IBGE mostra que menos de 19% dos juízes se autodeclaram negros. Na medicina, a desigualdade também se revela: mesmo com mais estudantes negros ingressando nas universidades, eles ainda são minoria nos cursos de medicina e nas residências médicas.
Esses muros invisíveis se erguem em várias dimensões. No mercado de trabalho, dificultam o acesso a cargos de relevância. Na economia, aparecem na desigualdade de renda: brancos recebem, em média, 40% a mais que negros, segundo a PNAD. No empreendedorismo, a contradição é evidente: mais da metade dos empreendedores do país são negros, mas seus negócios faturam, em média, menos da metade do alcançado por empreendedores brancos.
Mas os muros não são apenas econômicos. São também simbólicos. Estão na desconfiança velada sobre lideranças negras, na ausência de referências positivas na mídia, nos estereótipos que associam autoridade e prestígio quase sempre à figura branca. Como lembra Jessé Souza em Como o racismo criou o Brasil, a exclusão não é um resquício do passado: foi a base sobre a qual nossa sociedade foi estruturada, perpetuando desigualdades até hoje.
É nesse cenário que iniciativas culturais se tornam essenciais. Elas ajudam a dar visibilidade ao que por tanto tempo foi silenciado. A exposição Muros Invisíveis, aberta em 05 de agosto e em cartaz até 05 de outubro na Praça da Igreja Matriz, em Paracatu (MG), é um exemplo disso. A mostra homenageia 42 Afroempreendedores locais, dando rosto e voz a histórias que desafiam o racismo estrutural e reafirmam a potência do empreendedorismo negro. Colocar essas trajetórias no coração da cidade é mais que arte: é um ato político e social. É derrubar muros simbólicos e reconstruir pontes de reconhecimento e valorização.
Refletir sobre esses muros invisíveis não é apenas reconhecer uma injustiça histórica, mas também pensar no futuro. Políticas públicas de inclusão, ações afirmativas e investimentos em educação e empreendedorismo podem transformar esse cenário, abrindo caminhos para que a maioria da população brasileira ocupe espaços de liderança. O silêncio que tantas vezes acompanha a naturalização dessas ausências precisa ser substituído por ação: questionar, refletir e transformar.
Se os muros invisíveis se sustentam na invisibilidade e no silêncio, sua queda começa quando damos nome a eles e nos recusamos a aceitá-los como naturais. Cada pergunta feita em sala de aula, cada exposição em uma praça pública, cada afro-empreendedor que conquista seu espaço contribui para essa derrubada.
E talvez esse seja o grande aprendizado. Assim como meus alunos, que se espantaram ao notar o que nunca haviam percebido, a sociedade brasileira também precisa se espantar — e, a partir daí, agir. Porque é nesse instante de consciência que nasce a esperança de uma sociedade mais justa, plural e verdadeiramente democrática.