fbpx

Memórias e subterfúgios de Valter Hugo Mãe

9 de março de 2021

Por Marina Vidal (*)

O Sempre Um Papo abriu a programação de 2021, ano que comemora 35 anos de realização ininterrupta, recebendo o autor português, Valter Hugo Mãe, para falar de seu mais recente livro “Contra Mim” (Ed. Globo). Esta foi mais uma edição do projeto que está acontecendo de forma virtual, devido à pandemia do Covid-19. A conversa foi mediada pelo jornalista Afonso Borges, no dia 8 de março de 2021, sendo transmitida pelo Youtube, Facebook e Instagram do Sempre Um Papo.

O autor contou que o livro “Contra Mim” foi inspirado por um processo reflexivo de introspeção durante a pandemia. “Creio que fiquei precisando de regressar às estruturas fundamentais daquilo que é a construção da minha pessoa”. Para ele, o período de isolamento social promoveu desafios, sobretudo na identidade das pessoas, em razão de ocorrer uma interrupção grande nos hábitos. “Se nós não pudermos exercer o que nos é costumeiro, até que ponto vamos seguir sendo quem fomos? Até que ponto vamos nos reconhecer? Fiquei com a impressão que me redobrei na minha existência no sentido de que, tudo que pudesse me distrair de quem sou desapareceu, eu fiquei entregue ao que sou, à minha própria solidão. E, por isso, de alguma forma, nós ficamos em superexposição perante nós mesmos, nós somos superexpostos diante de nossos próprios olhos neste período de reclusão”, afirmou.

Esse caminho de autoconhecimento do autor teve início na infância, tema de sua mais nova obra. “Quando menino, percebi a magia das palavras, a possibilidade de inventar meu próprio mundo a partir da imaginação falada e escrita. Eu, imediatamente, quis ser um escritor. Ao analisar esse tempo, eu pude perceber se falhei, a que distância que eu estou daquela ética, daquela candura elementar que as crianças têm”.

Ao regressar a essa meticulosa construção, Valter Hugo Mãe descobriu várias lembranças de sua vida que ele próprio não se recordava. “A memória foi acontecendo quase que como uma revelação. Talvez nunca tivesse sido tão importante o exercício de lembrar. Eu achava que lembrava claramente o que talvez fosse fundamental, mas ao escrever eu passei a ter noites de sobressalto”.

Ele conta que pensava que seu livro seria muito mais curto por não acreditar que lembrava de tantas informações. “Escrevi um livro que eu não saberia escrever, eu não poderia prever escrever esse livro exatamente como ele é. A memória pode ir até um determinado ponto e a partir de um determinado ponto ela especula”. Segundo ele, essa especulação é de caráter biográfico porque ela produz consequências e os seres humanos são resultado de memórias não exatamente fidedignas do que aconteceu. “Elas se inscreveram no nosso espírito como sendo assim e a gente reagiu e pacificou de alguma forma aquilo como sendo da nossa própria identidade”.

“Contra Mim” é, de acordo com o autor, uma tentativa de autobiografia, sendo que ele está consciente de que é impossível fazer uma autobiografia, na qual ele é o personagem principal. “Toda autobiografia, como toda literatura, é sempre uma coisa dotada de um artifício, tem sempre uma artificialidade, não é a vida em si. Enquanto isso, ela não deixa de ser um esforço para recuperar a verdade e, por isso, não posso garantir que cada detalhe seja como digo. Nós não temos provas de termos sido quem fomos”. Valter Hugo Mãe explicou que faz na história uma gestão para que ela tenha uma performance literária, ou seja, perca seu caráter factual. “A gente, ao escrever, mata um pouco da verdade porque a coisa é transformada em uma obra que é uma mimesis da realidade, já não é exatamente a realidade”.

Para concluir, o souto confessou que, ultimamente, está com dificuldade para escrever romances devido à demanda da indústria de produzir em pouco tempo. “Eu ainda estou meio a procura de chegar novamente à ficção, mas com um entusiasmo cada vez maior, sobretudo, com a sensação cada vez mais intensa de que quando chegar o momento certo para replicar no meu romance novo, vou fazê-lo com a felicidade com que fazia há doze anos”.

Essa conversa, na íntegra, pode ser assistida nas redes sociais do projeto, Instagram e Facebook e no canal do Sempre um Papo no Youtube, com acesso pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=LjXT-55oWtI

(*) – Estagiária sob supervisão de Jozane Faleiro

[fbcomments]