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Do sofrimento à narrativa

25 de março de 2021

Por Marina Vidal (*)

O Sempre Um Papo abriu a programação de 2021, ano que comemora 35 anos de realização ininterrupta, realizando uma série de encontros com respeitados autores da atualidade. No dia 24 de março, os convidados foram o escritor e editor da Companhia das Letras no Brasil, Luiz Schwarcz e o primeiro escritor convidado para participar do Sempre Um Papo, em 1984, Frei Betto, para o lançamento do livro “O Ar Que Me Falta: História De Uma Curta Infância E De Uma Longa Depressão” (Companhia Das Letras), de Luiz Schwarcz. Esta foi mais uma edição do projeto que está acontecendo de forma virtual, devido à pandemia do Covid-19. A conversa foi mediada pelo jornalista Afonso Borges, sendo transmitida pelo Youtube, Facebook e Instagram do Sempre Um Papo.

A obra é um romance de formação não ficcional escrito em primeira pessoa, abordando a autobiográfica de Luiz Schwarcz por meio de suas memórias e com um pano de fundo histórico. “O Ar Que Me Falta é um livro obrigatório para se ler. O livro é literariamente muito saboroso. É algo muito característico falar sua subjetividade, da sua experiência de vida e se colocando inteiro com total transparência para o leitor. Luiz conseguiu uma narrativa extremamente ágil e elegante. Me impressiona como se expôs de uma maneira que dificilmente a gente encontra similar”, disse Frei Betto. 

Para Luiz Schwarcz, todos os conteúdos presentes em seu livro se entrelaçam e refletem nas pessoas, que se identificam com a obra. “Talvez porque eu passei por um gênero memorialístico de confissões que expõem vulnerabilidades, forma que escritores de ficção fazem com maior facilidade. No meu caso, eu transferi para um livro de memórias. Isso é um fato mais raro, foi difícil, mas eu acho que tinha que ser desse jeito”. 

Ao escrever “O Ar Que Me Falta” a intenção do autor era contar uma história que englobasse sua família e pudesse voltar no passado trágico dos avós e depois dos pais, relacionados ao sofrimento em relação a segunda guerra mundial, somando ao seu sofrimento pessoal. “A minha tentativa foi transformar um sofrimento em narrativa e tratar da ideia de sofrimento para uma abrangência um pouco maior, uma abrangência que o gênero confissões enquadra muito melhor do que o gênero memórias”. 

Frei Betto acredita que o subtítulo do livro é desnecessário, já que o título é muito impactante, e por ser muito restrito, pois “O Ar Que Me Falta” possui sete histórias entrelaçadas. “O livro, primeiro, é a história da sua bipolaridade, segundo, é a história da sua família, terceiro, é a história do nazismo, a história trágica, cruel, de sobrevivência, de dor. Quarto, é a história da sua carreira editorial, quinto, é a história do seu trajeto literário como autor. Sexto, é a história da sua relação com o esporte. E sétimo, é a história da sua relação com a Lilia, além da sua família. São histórias que se entrelaçam e de uma maneira muito feliz, no sentido literário”. 

Apesar de revelar muitas informações para os seus leitores, Schwarcz não contou toda a sua história, já que seu objetivo não foi fazer uma memória completa de sua vida. “Eu me senti em condições psicológicas de contar, mas o meu tudo não é tudo. As pessoas tem que saber que essa história poderia estar sendo contada de outra forma. Eu procurei na hora de me escrever, me despojar e falar, não iria poupar coisas com as quais eu não me orgulho de maneira nenhuma”, afirmou o autor.  

O estilo literário da última obra de Schwarcz lembrou Betto do estilo de literatura encontrado na obra ‘O Velho E O Mar’, de Hemingway, e na obra ‘Confissões’, de Santo Agostinho. “É um livro que a gente começa no primeiro capítulo e não consegue mais parar, vai até o fim. Quando a gente lê ‘Confissões’ é exatamente o que acontece quando a gente lê o seu livro. Parece que o Luiz está deitado na nossa frente e a gente está escutando o que ele tem a dizer. A maneira como você exorcizou os seus fantasmas, tanto os negativos como os positivos, é realmente de uma coragem e de uma transparência e humildade”.

Luiz ficou muito honrado ao ser comparado a dois mestres da literatura e conseguiu distinguir traços desses autores em seu livro. “Talvez eu tenha aprendido a secura literária do Hemingway no sentido de não buscar, ao falar da minha vida, principalmente, nenhum recurso literário, se eu não estava querendo engrandecer o personagem, eu não devia também engrandecer a linguagem”. 

Acompanhe a conversa na íntegra pelas redes sociais do projeto, no Instagram e Facebook e no canal do Sempre um Papo no Youtube, com acesso pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=Ppy-3vhdCOs

FRASES:

“O Ar Que Me Falta é um livro obrigatório”. – Frei Betto, 24/03/2021

 “A história não é o que mais importa. O que mais importa é como contá-la”. – Luiz Schwarcz, 24/03/2021

“O ‘quê’ não conta tanto quanto o ‘como’ na literatura e na arte”. – Luiz Schwarcz, 24/03/2021

“Ao olhar para o meu livro, eu vejo a palavra maturidade”. – Luiz Schwarcz, 24/03/2021

“O Ar Que Me Falta é um livro que a gente começa no primeiro capítulo e não consegue mais parar, vai até o fim”. – Frei Betto, 24/03/2021

“A verdade está completamente desprestigiada da vida política e social do nosso país”. – Luiz Schwarcz, 24/03/2021

“E se a política fosse sincera? E se os homens fossem sinceros consigo mesmos?” – Luiz Schwarcz, 24/03/2021

“A gente está vivendo um período de depressão coletiva, como nunca vivemos ou vivemos na Ditadura Militar”. – Luiz Schwarcz, 24/03/2021

“Santo Agostinho dizia que a justiça tem duas dimensões: a indignação e a coragem. Indignação para protestar e coragem para mudar”. – Frei Betto, 24/03/2021

“Eu queria manifestar a nossa indignação diante desse genocídio, 300 mil pessoas mortas”. – Frei Betto, 24/03/2021

“Todos nós temos que nos empenhar para mudar, redemocratizar novamente esse país”. – Frei Betto, 24/03/2021

(*) – Estagiária sob supervisão de Jozane Faleiro

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