fbpx

Contos sem fim

2 de dezembro de 2020

Por Marina Vidal (*)

O Sempre Um Papo recebeu o jornalista Zeca Camargo para o debate e lançamento do livro “Quase Normal: Contos” (Todavia). Esta foi mais uma edição do projeto que está acontecendo de forma virtual, devido à pandemia do Covid-19. A conversa foi mediada pelo jornalista Afonso Borges, no dia 2 de dezembro de 2020, sendo transmitida pelo Youtube, Facebook e Instagram do Sempre Um Papo.

Zeca Camargo optou pelo conto por ser um gênero relativamente curto, baseado na linguagem oral e em fatos cotidianos. “O conto é mais confortável e eu queria escrever sobre esse cotidiano doido que a gente está vivendo. Hoje em dia, estamos com uma vida muito louca e a gente teve que se adaptar muito rápido à rotina digital”. O conto também precisa ter um final surpreendente. “Você tem que dar a recompensa no final. E se você contar uma história sensacional a pessoa vai querer ler de novo para perceber aquela surpresa. E os contos do livro têm muito isso”, adianta.

O nome do livro, segundo Zeca Camargo, se deve a rotina proporcionada pela pandemia e a necessidade de manter isolamento social, a qual as pessoas precisaram se adaptar. “Essa rotina é muito doida, mas ao mesmo tempo muito normal. Evito falar o novo normal, que virou um grande clichê, mas era normal, a gente comia, bebia, encontrava, fechava negócio, ensaiava, lia, via filme, mas de um jeito um pouco diferente”. “Quase Normal: Contos” faz parte da coleção de 2020 da Todavia que são ensaios sobre a pandemia. “Esse livro foi a primeira ficção desse selo e eu fiquei super contente”.

Para a elaboração do livro o jornalista registrou histórias que vivenciava ou ouvia e acrescentou um pouco de ficção. “Comecei a ouvir histórias muito boas e passei a anotar. E mesmo quando eram histórias comuns, pensei em colocar um detalhe surreal nessa história. Os textos partem de situações muito reais do cotidiano por meio de observações, quando não vividas, contadas por alguém, ou até observação da internet. Eu juntei tudo isso e fiz uma narrativa”.

Ao longo da conversa, Zeca Camargo falou de alguns dos seus 20 contos como “Bico”, que é uma festa de aniversário via zoom, “Campainha”, o último e o primeiro conto. “O conto que abre o livro começa com a pessoa no apartamento dela olhando a janela e tem um corpo lá em baixo, mas ela diz que depois irá cuidar dele”. Apesar de ficcional, o conto é bem autobiográfico, pois é baseado na vida do autor. “Eu moro no Rio de Janeiro em um apartamento na rua Jardim Botânico, em uma rua que já era pacata, mas no isolamento ela estava deserta porque ninguém estava saindo e eu pensei: se tivesse um corpo lá embaixo, quem realmente iria prestar atenção nesse corpo? Eu comecei a imaginar situações absurdas dentro desse contexto”.

Um dos contos que o autor mais gosta é “Natureza” por causa de seu tom ficcional. “É basicamente eu olhando da janela do meu apartamento, a cidade ficou muito vazia e começaram a aparecer macacos do tamanho do meu tronco. Então eu comecei a perceber os macacos pulando do telhado do meu prédio para o Parque Lage”. Zeca destaca que tudo que está nesse conto, até o último parágrafo é praticamente uma descrição. “Um belo dia eu saio do banho e tem um na minha sala, os bichos começaram a entrar na minha casa, tem até hoje na janela a marca das mãos dos bichos”. Esse conto, o autor acabou revelando o final. “O dono da casa está no chuveiro com a mão e o pé amarrados e eu estou ouvindo o barulho de cerveja abrindo, o som está na maior altura e os macacos tomaram conta do apartamento”.

O autor admira os contos que possuem um fechamento, mas ele se diverte muito com os que interrompem antes de um encerramento definitivo. “A arte do conto é justamente te fazer imaginar possíveis desfechos. Além de contar uma história, de surpreender, de te levar até o final, ele também, muitas vezes, não encerra na última linha. Então, o trabalho é do leitor e é isso que me fascina”. Por isso, Zeca Camargo convidou as pessoas para lerem o seu livro e tentarem imaginar como poderiam acabar os contos e interagirem com ele nas redes sociais para discutir as diversas possibilidades de fim.

Essa conversa na íntegra pode ser assistida nas redes sociais do projeto, Instagram e Facebook e no canal do Sempre um Papo no Youtube, por meio do link: https://www.youtube.com/watch?v=nzLT4biGv2c

(*) – Estagiária sob supervisão de Jozane Faleiro

[fbcomments]