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Carolina e a literatura negra

3 de dezembro de 2020

Texto: Marina Vidal – estagiária sob supervisão

O Sempre Um Papo recebeu o escritor e jornalista Tom Farias para falar sobre o tema “Negritude, literatura e jornalismo” e sobre o livro “Carolina: Uma Biografia” (editora Malê), lançado em 2019. Esta foi mais uma edição do projeto que está acontecendo de forma virtual, devido à pandemia do Covid-19. A conversa foi mediada pelo jornalista Afonso Borges, no dia 3 de dezembro de 2020, sendo transmitida pelo Youtube, Facebook e Instagram do Sempre Um Papo.

Tom Farias deu início ao diálogo contestando a pouca representatividade da literatura negra nas escolas e no debate social. “Personagens que estão apagados da história ou embranquecidos como Machado de Assis, Olavo Bilac que tinha sangue negro, o Castro Alves que tinha sangue negro por parte de mãe, o grande romancista José do Patrocínio, injustamente esquecido, e os fundadores da Academia Brasileira de Letras. Machado não foi o único negro que fundou a Academia, tinha Domício da Gama, o próprio Patrocínio, Coelho Neto”. Segundo Tom, ainda estamos fadados à lógica do cânone “e a literatura negra não é cânone”.

Carolina Maria de Jesus é uma das personalidades negras da literatura que foi esquecida. De acordo com Tom Farias, ela só é conhecida pela sua obra “Quarto de despejo”, mas ela tem 20 anos de vida literária, estreando em 1940. “Começou a publicar em jornal suas poesias, contos e crônicas e teve uma atividade jornalística grande. Meu interesse era conhecer a Carolina antes e depois do ‘Quarto De Despejo’ e como que essa mulher, com apenas dois anos de Ensino Primário, consegue revolucionar a literatura”. O jornalista lembrou que ela foi uma mulher negra, que morava na favela e em situação de extrema pobreza e conseguiu ascender socialmente e passou a fazer parte da elite. “Essa transformação social de uma mulher do estado de miserabilidade causa estranheza, por isso ela é tão atual”.

Conforme Tom, Carolina é best-seller em onze países. Na Tchecoslováquia ela vendia por semana 10 a 15 mil livros, no Brasil ela vendeu 2.500 livros por dia e na Argentina ela vendeu 3.500 livros por dia. “Não há na literatura da América do Sul ou da América Latina ninguém com essa envergadura. Carolina foi lida por Prince à John Kennedy, ela foi chamada de Machado de Assis de saia, Jorge Amado dos pobres e a Shakespeare da cor. Essa mulher encantou o Brasil e continua encantando”.

Para recuperar a história de Carolina, Tom Farias realizou um tabalho misto de repórter, com trabalho acadêmico. “É um jornalismo histórico-literário. Eu fui três vezes em Sacramento, fui na escola onde ela estudou, no bairro onde ela nasceu, fui para o cartório, fui para o cemitério, escutei os filhos, ouvi amigos e li 200 obras sobre Carolina e sobre o Brasil e mais ou menos 1100 recortes de jornais para escrever o livro”. A partir dessa imersão, o jornalista conseguiu descobrir vários fatos sobre a vida de Carolina. “Foi perseguida pela Ditadura, por ser amiga pessoal do João Goulart e ter escrito um manifesto o apoiando antes do golpe. O livro dela era proibido de entrar em Portugal e não entrava na África porque era colônia. É uma escritora premiada, realizou um movimento de desfavelização e recebeu cidadania paulista”.

A escritora inspirou Tom Farias porque é um exemplo de luta e superação, além de sua escrita extraordinária. “É uma pessoa que me encantou muito e me humanizou também. Ela foi muito importante para a minha carreira, já tenho treze livros publicados, já caminhando para os 15″. Tom Farias está lançando o livro “A Bolha” pela Editora Patuá.

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Para encerrar, Tom Farias reforçou a importância de obter a nova edição da obra “Carolina: Uma Biografia”, pois está repleta de novidades. “A Carolina nunca vai estar completa. Aumentaram umas 60 páginas, meu livro tem muita coisa inédita que não estava na primeira edição”. Nessa nova versão, o jornalista fala sobre a infância de Carolina, seu apelido e como foi presa duas vezes. “A revelação também da história um pouco mais aprofundada de Sacramento, sobretudo no aspecto cultural, os homens negros que eram importantes em Sacramento na época de Carolina, o teatro. O livro traz muitas novidades, eu aprofundo muito a presença dela em alguns estados, sobretudo em Pernambuco, a relação dela com a sociedade paulistana e brasileira, as diversas discriminações que ela sofreu, sua relação política e com os filhos”.

Essa conversa na íntegra pode ser assistida nas redes sociais do projeto, Instagram e Facebook e no canal do Sempre um Papo no Youtube, por meio do link: https://www.youtube.com/watch?v=YnZL5I9v0SI

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