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As imagens no centro das relações sociais

24 de setembro de 2021

Por Laura Rossetti (*)

A artista e escritora Giselle Beiguelman participou do Sempre Um Papo de quinta-feira, 23 de setembro, para lançar o seu livro “Políticas da Imagem: vigilância e resistência na dadosfera” (Ubu Editora). Durante o bate-papo, ela explicou alguns dos diversos conceitos presentes na obra, como a noção de transversalidade e as chamadas “biopolíticas porosas”. A transmissão da live, que contou com tradução simultânea em Libras, aconteceu às 19h, através das redes sociais do Sempre Um Papo.

Na obra “Políticas da Imagem: vigilância e resistência na dadosfera”, sistematizada e desenvolvida ao longo da pandemia, Giselle defende que as imagens não são somente um lugar de transmissão de ideias, linguagens e afetos, mas também se constituem no campo de tensões políticas da atualidade. “O livro reúne seis ensaios com temas muito específicos, mas que, de alguma forma se transversalizam e que dividem um pressuposto comum: que as imagens se tornaram os elementos principais de mediação do cotidiano”, sintetiza a autora.

Em razão do potencial de atravessamento que as imagens possuem, atualmente, no dia a dia das pessoas, a autora explora no livro a noção de transversalidade. “Como as coisas chegam em nós e como as coisas saem de nós hoje em dia pressupõem essa experiência transversal de ponta a ponta”, diz. Segundo Beiguelman, este conceito mobiliza saberes que, até o início dos anos 2000 eram tomados como campos à parte, mas que hoje são vistos em relação uns aos outros, de modo inseparável.

Para exemplificar essa proposição, a autora diz ser possível observar a presença da transversalidade até mesmo na troca de mensagens pelo WhatsApp. “Não tem como nós falarmos em uma operação tão corriqueira como a de responder uma mensagem com um sticker, sem colocar no quadro uma outra sociologia, uma outra forma de criação anônima que fica no limite, muitas vezes, entre a arte, a comunicação e o entretenimento”, afirma.

Perguntada pelo jornalista Afonso Borges, que mediou a conversa, sobre os efeitos que a superexposição às imagens causa na vida das pessoas, Giselle respondeu que isso pode gerar um sentimento generalizado de axaustão. “Já está sendo estudada esta ideia de que nós vivemos a sociedade do cansaço. Isso é absolutamente esgotante”. Ao mesmo tempo, a autora destaca que as redes sociais “permitem uma ocupação da tela e da imagem por uma diversidade social que não tem precedentes na história”. Isso possibilita a criação de outras estéticas, que transgridem as normas tradicionais ditadas pelas escolas de Cinema e Arte.

Beiguelman falou ainda sobre o que, em seu livro, ela chama de “biopolíticas porosas”. O conceito de biopolíticas, formulado pelo filósofo francês Michel Foucault, diz respeito às formas como o Estado Nacional controla as pessoas na cidade, definindo o modo de agir delas dentro dos parâmetros do que é normal e do que não deve ser aceito. “(A biopolítica) é essa carta programática que define nossa subjetividade”, conceitua a autora.

A explicação para a tese da autora de que, atuamente, as biopolíticas são porosas está no fato de que elas controlam “os corpos sem tocá-los, porém, inaugurando uma nova forma de violência social”. Como exemplo deste controle distante, a autora cita as câmeras que estão nas portas dos shoppings, de grandes lojas e lugares públicos. Estas tecnologias escaneaiam as pessoas,  leem a temperatura de seu corpo e extraem uma série dados sem o nosso consentimento.

Esta foi uma edição do #SempreUmPapoEmCasa. A conversa permanece disponível para acesso nas redes sociais do Sempre Um Papo: Instagram, Facebook e YouTube.

*Estagiária sob a supervisão da jornalista Jozane Faleiro

Frases

“Eu acredito que a arte é uma forma de pensar o mundo e um exercício de tensionamento do real”. – Giselle Beiguelman

“A liberdade de expressão termina onde os direitos humanos já, há muito tempo, estabeleceram um limite” – Giselle Beiguelman

“A vigilância é o horizonte da contemporaneidade algorítmica” – Giselle Beiguelman

“O racismo algorítmico é uma dimensão do racismo estrutural. Ele confirma e aprofunda exclusões que já estão arraigadas na sociedade” – Giselle Beiguelman

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