Aplausos à Paulo Autran

Nesta sexta-feira a cortina do teatro não abriu. O pipoqueiro ficou sem função, assim como o porteiro, os técnicos, o iluminador. A data era de alegria em homenagem às crianças pelo 12 de outubro, mas a tarde foi triste, de luto. Às 16 horas morreu Paulo Autran, o maior ícone da história do teatro brasileiro.

Foi atrás do palco que conheci Paulo Autran. Ele, com mais de 80 anos, esbanjava força e vitalidade enquanto eu, menino de 18, me vangloriava de estar divulgando seu espetáculo em Belo Horizonte. Era “Quadrante”, no qual o ator interpretava poemas e contos de grandes escritores brasileiros. Ele brincava ao dizer que a peça era mais velha que eu e, a todo o momento, me motivava a conseguir mais entrevistas para garantir público à noite. Fui produtor, motorista, cicerone e, por três dias, me senti companheiro de um ídolo de muitas gerações.

Ao mesmo tempo em que era doce, ele era bravo e não tinha muita paciência com jornalistas. A fama corria tanto que, certa vez, uma repórter chegou tremendo para entrevistá-lo no hotel e desabafou: “Paulo, estou com muito medo porque me disseram que o senhor é muito bravo”. Ele a abraçou, passou as mãos em seu rosto e disse: “Calma, minha filha, não se preocupe. Eu não vou bater em você”. A entrevista foi linda e o papo continuou na cafeteria, onde ele contou suas histórias, falou de namoro, política, e declarou um carinho imenso ao Sempre Um Papo, Afonso e Taty.

Mas não se podia brincar com a paciência de Paulo Autran. Em outra ocasião, estava com ele no Sempre Um Papo, em São Paulo. A meu pedido, ele concedeu uma entrevista para uma emissora do Japão. Falou por 30 segundos, despediu da repórter com um beijo na testa e não me perdoou. “Completamente desnecessária essa entrevista, Rafael. Completamente desnecessária…” Por um momento, quis me teletransportar para uma outra galáxia, pois havia errado com uma pessoa que tanto admirava.

Paulo Autran participou do Sempre Um Papo duas vezes. Em 2001, em Belo Horizonte, junto com o ator Cássio Scapin, encantou a todos ao falar sobre o espetáculo “Visitando o Sr. Green”. Em novembro do ano passado, já em São Paulo, ele lançou o livro “Sem Comentários”, numa emocionante entrevista ao jornalista mineiro Humberto Werneck.

Relembrando as palavras de Guimarães Rosa, ele se encantou. Fica a admiração no coração dos brasileiros. Nos nossos, da equipe do Sempre Um Papo, fica também o orgulho. Paulo Autran, à sua maneira, fez parte da nossa história.

:: Rafael Araújo