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Utilitarismo e a banalização do sentido da vida

27 de agosto de 2020

Texto: Marina Vidal – estagiária sob supervisão

O Sempre Um Papo recebeu o pensador e líder indígena Ailton Krenak e o jornalista Eugenio Bucci para debate e lançamento do livro “A Vida Não É Útil” (Cia das Letras), de Krenak. Esta foi mais uma edição do projeto que está acontecendo de forma virtual, devido à pandemia do Covid-19. A conversa foi mediada pelo jornalista Afonso Borges, no dia 27 de agosto de 2020, sendo transmitida pelo Youtube, Facebook e Instagram do Sempre Um Papo.

O diálogo teve início com Ailton Krenak explicando como se encontra o Rio Doce após o impacto causado pelo rompimento da barragem de Mariana e as consequências para a reserva indígena Krenak. “Ele está suspenso, ninguém pode usar a água do rio para nada, não tem vida dentro do rio e eu costumo dizer que o material que corre ali parece água, mas não é”. Apesar disso, o pensador indígena falou que o rio não está morto, pois Krenak acredita que ele ainda pode voltar a ter alguma qualidade de rio. “Mas para isso acontecer é preciso parar de jogar os esgotamentos de Belo Horizonte, de Mariana, porque as cidades e municípios que estão na beira do rio tem o péssimo hábito de jogar os esgotos sanitários ali.”

Eugênio Bucci indagou sobre os rumos do povo Krenak. “Eu lembro de você dizer que eram cinco mil no início do século e houve uma redução violenta do seu povo e, agora, parece que há uma recuperação”. Ailton explicou que a família Krenak, que oriunda dos botocudos, vivia na Floresta do Rio Doce e foi, no século XX, para a reserva em que hoje estão localizados, pois estavam sendo caçados. “Isso denuncia, de certa maneira, uma tendência que nós temos em nosso país que é de reduzir a população indígena nos termos de integrar economicamente”, afirmou o autor.

Krenak é enfático na culpabilização da colonização pelo processo de aniquilação dos índios, uma vez que somente pelo contato com os colonizadores os índios contraíram doenças e sucumbiram à morte. “Eu acho mais do que necessário esse discurso que você elabora e vem fazendo. E vejo com muita alegria que isso ultrapassa as fronteiras brasileiras. Essa capacidade que você tem de desmontar alguns axiomas, algumas cláusulas pétreas da civilização, que são bobagens, está contagiando outras pessoas, está chegando a outros lugares”, destacou Bucci.

Ailton é autor de diversos livros, dentre eles, “Ideias Para Adiar O Fim Do Mundo”, “O Amanhã Não Está À Venda” e “A Vida Não É Útil”, que estão sendo reunidos em uma única edição para serem lançados na Europa. “O livro sai na Alemanha, na Itália, no Canadá, na Argentina, tudo daqui para o final de 2020. Esse livro vai circular em várias línguas. Eu não imaginava, de jeito nenhum, que pudesse interessar alguém fora do Brasil a abordagem que eu faço em ‘Ideias Para Adiar O Fim Do Mundo’”.

Provocado por Afonso Borges, Krenak contou que “o fim do mundo não está ali na esquina, mas ele virá”. Então, como é inevitável que isso aconteça, o autor propõe em no livro formas para prorrogar essa condição. “Quando você fala ideias para adiar o fim do mundo é para ver se a gente empurra o apocalipse mais para a frente, mas que ele está anunciado, está, mas não sou eu que trouxe essa profecia”.

Segundo Ailton Krenak, o capitalismo está promovendo uma grande depredação e, por isso, estamos vivendo em uma era na qual a tecnologia desenvolvida pelos seres humanos está sendo aplicada de uma maneira desordenada em todos os continentes, chegando a colocar em risco a continuidade da vida em vários ecossistemas. “O capitalismo orienta a humanidade no ponto de vista de acreditar que o tempo é uma flecha prospectiva, uma linha, aquela coisa cartesiana, em que o amanhã vai sempre existir, é uma garantia. E eles vendem o amanhã apoiado numa máxima de que tempo é dinheiro e você negocia o amanhã”.

Entretanto, como ele afirmou, isso não é verdade, fato que o motivou a escrever o livro “A Vida Não é útil”. “A vida não pode ser útil, a vida não tem utilidade, a vida não é utilitária, a vida é um dom maravilhoso, ela é um presente para a gente fazer uma dança cósmica”. Ailton também comentou sobre a cultura do trabalho excessivo e que abdicamos da nossa vida para o trabalho. “A vida não é uma mediocridade que você negocia oito horas por dia, 48 horas por mês. Esse mundo trabalhista, essa besteira de dizer que o trabalho edifica o homem, todo esse papo furado é uma conversa de patrão para empregado. Ainda bem que o meu próximo livro vai mostrar como o mundo do trabalho caiu”.

Já seu livro “O Amanhã Não Está À Venda” é uma denúncia sobre o período de pandemia. “Sua publicação provocou muitas conversas, debates, eu fiz várias entrevistas a partir dele. O dispositivo que disparou de dentro dele foi ‘A vida não é útil’, aquele conjunto de textos foram falados, onde eu, assim como nesse nosso encontro, ponho em questão algumas lógicas do cotidiano”. O autor acredita que a vida é um dom e uma pessoa não tem que ser útil para ficar viva. “Então, ao cedermos as lógicas capitalistas e não praticarmos a empatia pelo outro, estamos banalizando o sentido da vida. Quando a gente diz que tempo é dinheiro, ou que precisamos sair desse confinamento e correr para o shopping, estamos declarando que a vida não vale nada”.

Essa conversa na íntegra pode ser assistida nas redes sociais do projeto, Instagram e Facebook e no canal do Sempre um Papo no Youtube, por meio do link: https://www.youtube.com/watch?v=i-MKkLi3PVA

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