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“Literatura não é apenas contar histórias, ela tem infinitas possibilidades”

13 de março de 2021

Texto: Marina Vidal – estagiária sob supervisão

O Sempre Um Papo abriu a programação de 2021, ano que comemora 35 anos de realização ininterrupta, realizando uma série de encontros com respeitados autores da atualidade. Um dos convidados foi o escritor angolano Gonçalo M. Tavares para falar sobre o seu mais recente livro “Atlas do Corpo e da Imaginação” (Ed. Dublinense). Esta foi mais uma edição do projeto que está acontecendo de forma virtual, devido à pandemia do Covid-19. A conversa foi mediada pelo jornalista Afonso Borges, no dia 12 de março de 2021, sendo transmitida pelo Youtube, Facebook e Instagram do Sempre Um Papo.

“Atlas do Corpo e da Imaginação” é um livro com cerca de 500 páginas, no qual há um ensaio fotográfico com diversas imagens do coletivo de artistas plásticos d’Os Espacialistas para dar vida ao pensamento e às demais formas de arte analisadas por Gonçalo.

“Este livro é uma maluquice escrita em fragmentos. Tem fragmentos sobre a imaginação, o amor, a dor, a saúde, a morte”.

A ideia inicial da obra veio de uma tese de doutorado de Gonçalo M. Tavares. “O propósito foi fazer um livro mesmo. E, felizmente, na Universidade de Lisboa, eles deram espaço para eu fazer essa maluquice”. Isso porque o autor não seguiu à risca a lógica das teses dissertativas e propõe um modelo segmentado e que se contradiz em muitos trechos. “Um fragmento pode dizer uma coisa e eu dizer outra completamente contrária em outro fragmento. É uma experiência ao mesmo tempo literária, filosófica e acadêmica”.

O autor explicou que seu Atlas tende ao público artista em função da aplicabilidade que pode garantir ao ambiente profissional desse grupo. “O Atlas chega normalmente a artistas, criadores de dança, de teatro, da arte, da arquitetura. É um livro que é lido também por leitores da literatura, mas muito por artistas. E isso é muito interessante porque há muitas pessoas que já fizeram alguma coisa a partir do Atlas”.

O autor lembra que seus livros traz uma literatura diversificada. “Meus livros são muito diferentes entre si. Há escritores que são mais do imaginário, há escritores que são mais do realismo e há inúmeras variações no meio. Por exemplo, eu tenho livros muito do imaginário “O Bairro” é um bom exemplo, mas também tenho muitos livros da realidade, sobre o século XX, sobre a violência, como “Jerusalém”. E tenho livros em que a linguagem é muito seca, muito fria, têm outros livros que são justamente com a linguagem mais alucinante, por exemplo, “Canções Mexicanas”, que parece um bombardeamento de palavras, de frases”.

Para o angolano, a literatura contemporânea não está sendo totalmente explorada, suas possibilidades não estão sendo aproveitadas como deveriam. “A literatura não é apenas contar histórias, não pode ser. Eu adoro histórias, a narrativa é uma coisa hipnótica, mas a literatura tem infinitas possibilidades. Não estou dizendo que eu aproveito muito não, mas tento fazer com que cada grupo de livros vá para um caminho, quando possível, algo pouco explorado ou não explorado”.

Gonçalo comentou que ele tem a impressão de que os livros atuais parecem ser todos iguais entre si, no que se refere a estrutura e o tipo de linguagem. “Acho que, no geral, a literatura é um pouco conservadora, para o bem e para o mal, há muita literatura ainda do século XIX”. Para ele, essa tendência literária atual de enfrentar a herança de padrões e modelos de séculos passados, também acontece na arte de um modo geral. “Acho que 80 a 90 por cento da arte contemporânea feita hoje ou é instalação ou performance. Claro que continua a haver pintores, mas o início do século XX na arte fez um corte radical e isto é filho das vanguardas do século XX. Portanto 90% da literatura do século XXI é igual à literatura do século XIX”.

Acompanhe a conversa na íntegra pelas redes sociais do projeto, no Instagram e Facebook e no canal do Sempre um Papo no Youtube, com acesso pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=odpEzbjrw2Q&t=961s

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