fbpx

A Língua que nos separa

27 de julho de 2020

Texto: Marina Vidal – estagiária sob supervisão

O Sempre Um Papo recebeu os portugueses Paulo Ferreira e Tito Couto, gestores da The Book Company – empresa que sintetiza toda uma abordagem multidisciplinar ligado ao livro, à edição e à leitura, com sede em Portugal, para falarem sobre o tema “A Língua que Nos Separa”. Essa foi mais uma edição do projeto que está acontecendo de forma virtual, devido à pandemia do Covid-19. A conversa foi mediada pelo jornalista Afonso Borges, no dia 27 de julho de 2020, sendo transmitida pelo Youtube, Facebook e Instagram do Sempre Um Papo.

Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Timor Leste são países que possuem uma ligação que é a Língua Portuguesa. “Entretanto, ao mesmo tempo que essa língua nos une, ela também nos separa. Eu acho que é um trabalho a fazer para que seja efetivamente mais comum ver autores portugueses no Brasil, da mesma forma que também sejam autores do Brasil em Portugal, porque não é por termos a mesma língua que um autor brasileiro entra no circuito português ou vice versa”, disse Paulo Ferreira.

Os convidados falaram sobre a relação entre a publicação de livros portugueses no Brasil e brasileiros em Portugal. Para Tito Couto, o grande desafio que se coloca na ligação entre Portugal e Brasil se relaciona à falta de tradução dos livros de um escritor português no Brasil para língua matriz e vice-versa, o que promove pouco interesse do leitor em ler autores estrangeiros. “Para muitos leitores é como se estivessem quase lendo uma nova língua, uma língua ligeiramente diferente e isso cria alguma resistência. E não há nada pior para os leitores que o texto não estar resistível”.

Segundo Paulo Ferreira, essa separação também ocorre porque as nossas escolhas culturais são influenciadas por outras culturas, como a norte americana “Se um escritor brasileiro quer ter sucesso em Portugal ele publica com um nome em inglês para ter mais sucesso porque, efetivamente, as pessoas acabam por estarem disponíveis. Por vezes, o que as pessoas querem é mais do mesmo que conhecem”.

Para vencer essa resistência é preciso, conforme Tito, tornar mais natural a absorção das outras línguas por meio da interação com pessoas de países de origem lusófona. “Não há nada melhor para ampliar nossos horizontes, para estimular o nosso cérebro, do que aprender uma língua nova. Nós temos aqui uma oportunidade, ainda que o português seja o mesmo, tem estruturas, tem palavras que são ligeiramente diferentes e, portanto, nós vamos estar em certa medida aprendendo uma língua”.

Essa mudança não tem que partir somente dos Estados e governantes, mas também da iniciativa privada, como explicou Paulo Ferreira. “A única maneira que nós temos efetivamente de combater isso é os produtores culturais, os escritores, as pessoas unirem-se”. Tito Couto ainda contou que nos últimos 25 anos a venda de livros brasileiros em Portugal foi pouca e os editores tem muita resistência em publicar porque sentem que vai vender pouco. “Vamos ter que insistir muito, vai ter que ser publicado muito livro que vai vender pouco”.

De acordo com Paulo, as pessoas ligadas a movimentos culturais precisam tomar iniciativa, pois a cultura consegue transformar essa realidade. “A música é um bom exemplo, porque a música brasileira está completamente entranhada em Portugal e isso é bom, e eu gostaria que isso acontecesse na literatura”. Para Tito, todos aqueles que consomem, produzem cultura, percebem que existe uma família entre os países de origem lusófona. “Quando tiramos a componente política, eu acho que somos uma família bastante unida, porque os portugueses adoram música africana, a música brasileira, a produção audiovisual brasileira, os brasileiros gostam de escritores portugueses, tem uma ligação pela cultura africana, os africanos, angolanos e moçambicanos tem uma ligação cada vez maior com o Brasil e, em alguns casos, tem já uma ligação mais intensa com o Brasil do que propriamente com Portugal”.

Essa conversa pode ser assistida nas redes sociais do projeto, Instagram e Facebook e no canal do Sempre um Papo no Youtube, por meio do link: https://www.youtube.com/watch?v=JP9lznBnPE4

[fbcomments]