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A distópica realidade brasileira

1 de setembro de 2021

Por Laura Rossetti (*)

Encerrando a programação do mês de agosto de 2021, o Sempre Um Papo recebeu, no dia 31, terça-feira, os escritores Carlos Marcelo e Fernando Bonassi. Os convidados conversaram com Afonso Borges sobre os seus livros recém-lançados, “Os Planos” (Letramento) e “Degeneração” (Record), respectivamente. O bate-papo, que contou com tradução simultânea em Libras, foi uma edição do #SempreUmPapoEmCasa, com acesso gratuito e transmissão pelas redes sociais do projeto.

“Os Planos” é o segundo romance do mineiro Carlos Marcelo. O primeiro se chama “Presos no Paraíso” e foi publicado em 2017. Ele é autor também de três biografias: “Nicolas Behr – Eu Engoli Brasília”, de 2004, “Renato Russo – O Filho Da Revolução” (Agir), de 2009, e “O Fole Roncou! – Uma História Do Forró” (Zahar), de 2012, em coautoria com Rosualdo Rodrigues.

Carlos Marcelo conta que a ideia do enredo de “Os Planos” veio no momento em que ele estava fazendo as pesquisas para sua segunda biografia. “Eu entrevistei mais de 100 pessoas, entre 2000 e 2009, para fazer o livro do Renato Russo e esbarrei com vários amigos dele que são anônimos, pessoas que (…) chegaram a montar alguma banda de garagem nos anos 70, mas que permaneceram na cidade, foram fazer outras coisas, e não se tornaram famosas. Ou seja, fizeram planos de ter também sucesso e esses planos foram frustrados”, afirma o autor.

Nesse sentido, o novo romance de Carlos Marcelo é ambientado em Brasília e conta a história de cinco jovens amigos que, nos anos 70, são acometidos por um fato marcante que ecoa para sempre em suas vidas. A um certo ponto, um desses amigos incita os outros a planejar com ele o assassinato de um senador da República. No entanto, no decorrer da narrativa o plano ganha rumos inesperados e a obra assume contornos de tragédia. “É um drama humano onde a violência está presente”, diz o autor sobre o livro.

Já o livro “Degeneração”, de Fernando Bonassi, gira em torno de um filho que sempre teve uma relação muito difícil com seu pai, um sujeito extremamente conservador e hostil. Às vésperas da eleição presidencial de 2018, que colocou Jair Bolsonaro no poder, o pai acaba falecendo e o filho se encaminha ao necrotério de um hospital em São Paulo para liberar o corpo.

A partir desta trama, a obra aborda as atrocidades cometidas durante a ditadura militar, entre 1964 e 1985, os equívocos dos governantes seguintes e o modo como este falho passado político reverbera nos dias de hoje. Nas palavras do autor, o livro é sobre “uma experiência de uma geração que fracassa”. Carlos Marcelo compartilha desta perspectiva, afirmando que o livro de Bonassi é “um acerto de contas de um filho com o pai, mas um acerto de contas de uma geração com seu próprio passado também”. 

O fracasso, aliás, é um elemento em comum nos romances dos dois autores. Conforme Fernando Bonassi, as falhas na política brasileira se manifestam no fato de “a gente não enfrentar o que tinha que ser enfrentado”. Ele dá o exemplo de militares torturadores que foram absolvidos após a ditadura. “Tem uma série de coisas que ficaram pelo caminho”, diz. Carlos Marcelo, por sua vez, afirma que tomou o cuidado de que o livro não trouxesse uma única e negativa perspectiva sobre a cidade de Brasília e a realidade do país, de modo geral. “Eu não me permiti ser tão desesperançado no livro e ficar apenas com uma visão de fracasso. Não é um livro derrotista”.

Confira a gravação da conversa no YouTube, Instagram e Facebook do Sempre Um Papo.

* Estagiária sob a supervisão da jornalista Jozane Faleiro

Frases:

“Já começo logo fazendo esse registro (…) desse verdadeiro ato de resistência que é falar sobre livros, refletir sobre livros e refletir sobre nosso país a partir dos livros”. – Carlos Marcelo

“Eu acho que cada vez mais a realidade está nos sufocando (…), com acontecimentos diários que são muito mais estranhos e avassaladores que a ficção”. – Carlos Marcelo

“O que eu acho mais interessante em um romance é que ele ecoa o que está acontecendo” – Fernando Bonassi

“Eu escrevo para colocar em palavras cenas ou sensações que vieram à cabeça” – Carlos Marcelo

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