ESTADO DE MINAS
Dia 20/09/2006, quarta-feira
Caderno Gerais
CIDADANIA
Doação incentiva leitura
Projeto apoiado pelo Estado de Minas entrega cerca de dois mil livros novos e usados a centro cultural e promove discussão sobre a obra do escritor mineiro Murilo Rubião
A empregada doméstica Alexandra de Oliveira, de 32 anos, tem mais um motivo para freqüentar o Centro Cultural da Pampulha, no Bairro Urca, em Belo Horizonte. O espaço ganhou ontem mais 450 livros novos e outros 1,5 mil usados, doados pelo projeto Biblioteca Sempre um Papo, que tem o Estado de Minas como um dos parceiros. ???Gosto de ler tudo que cai nas minhas mãos???, conta a doméstica, que chega a ler seis livros por mês. ???As pessoas estão muito ligadas em telenovelas, mas o livro é um conhecimento eterno, uma herança que ninguém nos tira. Quando começo a ler, não consigo mais parar???, diz Alexandra. Ela vai diariamente ao centro cultural, lê os jornais e passa a maior parte do fim de semana em verdadeiras viagens literárias ao mundo do conhecimento. ???De vez em quando, leio revistas em quadrinhos para quebrar a seriedade???, comenta.
Graças ao hábito de leitura, a doméstica tirou uma boa nota no Exame Nacional do Ensino Médico (Enem), feito recentemente, que teve como tema da redação o poder transformador da leitura. Ela pretende prestar vestibular para fisioterapia.
O diretor do centro cultural, Edward Ramos, disse que as bibliotecas não são apenas ???templos??? do conhecimento, mas também espaços de convivência. Além dos 2 mil usuários cadastrados, a comunidade procura o lugar para pesquisas, auxílio nas tarefas escolares, participação em debates e encontros com escritores e artistas plásticos. ???Espaços como esse devem ser ampliados, pois é uma forma de garantir a o acesso a obras importantes???, completa Edward.
O Centro Cultural da Pampulha foi inaugurada em outubro de 2000. Com a doação de ontem, o acervo passou para 6,3 mil livros. ???A gente atende todas as faixas etárias, mas as crianças são mais presentes. Elas estão crescendo e participando de todas as atividades. Temos até um cantinho para elas, com gibis, livros infantis e contadores de história???, informa o diretor.
Um sarau de histórias é promovido todo último sábado do mês no jardim interno, iluminado com lampião. ???As pessoas vêm contar ou ouvir histórias. São momentos que hoje são raros, com gente conversando e aprendendo???.
Estudante da 4ª série do ensino fundamental, Caio de Morais, de 11 anos, chega a freqüentar o espaço quatro vezes por semana. ???Faço oficinas de desenhos, de história da arte e de percussão. Gosto dos livros de aventura. São viagens ao mundo da imaginação???, disse. Entre as obras recebidas ontem, estão grandes nomes da literatura brasileira e internacional, como Adélia Prado, Marina Colasanti, Gilberto Freire e Gabriel Gárcia Márquez.
O escritor Humberto Werneck fez a entrega dos livros e conversou com a comunidade sobre a vida e a obra do escritor mineiro Murilo Rubião. ????? um encontro maravilhoso, entre uma coisa apaixonante, que é o livro, e essa coisa apaixonada que é o leitor. Um casamento perfeito???, disse. Para Humberto, o brasileiro precisa ser despertado , cativado e seduzido para a leitura, assim como é seduzido para uma série de outras coisas, como a compra de um tênis e de outro objeto de consumo. ????? preciso ensinar ? s pessoas o potencial de sedução, sabedoria, beleza e sensibilidade que tem um livro. ?? um investimento de longo prazo e interminável???, conclui.
Até o fim do ano, o projeto Biblioteca Sempre um Papo pretende doar mais 6 mil livros para cinco bibliotecas públicas da capital. Em abril, doações de livros usados foram feitas, por uma centenade pessoas, na Praça da Liberdade, região Centro-Sul. Para cada obra entregue, a pessoa ganhava uma rosa vermelha. Em agosto, a escritora carioca Marina Colasanti fez a entrega de 2 mil livros ? biblioteca comunitária da Pedreira Prado Lopes. ???História é um presente que quem conta dá a quem escuta???, disse Marina.
“As pessoas estão muito ligadas em telenovelas, mas o livro é um conhecimento eterno, uma herança que ninguém nos tira” – Alexandra de Oliveira, 32 anos, doméstica