História como parte da narrativa

Por Marina Vidal (*)

O Sempre Um Papo recebeu o escritor e cientista político, Sérgio Abranches e o escritor Alberto Mussa para falarem sobre o tema “Literatura e História”. Esta foi mais uma edição do projeto que está acontecendo de forma virtual, devido à pandemia do Covid-19. A conversa foi mediada pelo jornalista Afonso Borges, no dia 13 de agosto de 2020, sendo transmitida pelo Youtube, Facebook e Instagram do Sempre Um Papo.

O diálogo teve início com um elogio de Sérgio Abranches sobre Alberto Mussa. “Acho o Beto um dos nossos romancistas mais completos e ele tem um texto que é preciso, aliás isso tem a ver também com a formação dele em matemática, de saber fazer com a máxima parcimônia”. Sérgio explicou que Mussa mistura literatura e história. “Os livros do Beto além de serem grandes trabalhos de ficção são, na verdade, uma parte importante da memória cultural do Rio de Janeiro”.

Alberto Mussa é autor de cinco romances policiais históricos que são, por ordem de lançamento: “O trono na rainha ginga”, que se passa no século XVII, “O senhor do lado esquerdo”, no século XX, “Primeira história do mundo”, no século XVI, “A hipótese humana”, no século XIX, “A biblioteca elementar”, século XVIII. “Eles são independentes, os personagens não se repetem, as histórias não têm conexão, você pode ler em qualquer ordem, eles só formam realmente um conjunto que se liga em função de serem romances policiais históricos, passados no Rio de Janeiro e com fundo mitológico”, afirmou Mussa.

O autor explicou como teve a ideia para escrever esses livros. “Pensei justamente em fazer um conjunto de romances para trazer o aspecto mitológico dessa era de formação da cidade”. Nesse processo, ele também conseguiu descobrir possivelmente o primeiro crime que ocorreu no Rio de Janeiro. “A cidade foi fundada em 1565 e, em 1567, já tinha um crime. Curiosamente, um crime fantástico porque uma pessoa foi morta por causa de uma mulher, em uma cidade que não havia mulheres praticamente”, lembra Alberto Mussa.

Para a realização de sua pesquisa, Mussa se embasou em vários livros de história, fez questionamentos a historiadores e fontes oficiais. “Li também sobre a cidade, como era o desenvolvimento urbano do Rio de Janeiro. Eu tenho aqui mapas do Rio, desde o século XVI até o século XX, com toda a expansão do centro histórico, em cada momento”. Contudo, o autor informou que, como não é um historiador, ele não precisa aprofundar muito nas questões históricas, faz as leituras e as vezes se aprofunda pouco em um assunto.

Segundo mostrou Alberto Mussa, em seus romances existe a presença do contexto histórico. “Eu me preocupo muito com essas verossimilhanças históricas. Então, eu procuro reconstituir da melhor maneira possível”. E, como explicou, não é preciso ser um historiador para fazer isso. “Mas se você puder se aproximar o máximo possível daquilo que foi, do que os historiadores reconstituem para os períodos é muito importante, porque é mais um dado que o leitor tem, mais um prazer”.

Para encerrar, Mussa detalhou sobre o gênero ficção. “A ficção tem que ser livre e acho que eu posso ter uma personagem mulher, um personagem homem, um personagem padre, posso ter o que eu quiser, porque o fundamento da literatura justamente é a experiência de você tentar ser outra pessoa, de você se colocar no lugar do outro. Se isso é uma impropriedade, a literatura é uma atividade imprópria e que ela deve ser então banida”. Por isso, ele acredita que a ficção, a arte, a literatura, incomodam sempre. “Talvez seja por isso que nós temos que continuar fazendo”.

Essa conversa na íntegra pode ser assistida nas redes sociais do projeto, Instagram e Facebook e no canal do Sempre um Papo no Youtube, por meio do link: https://www.youtube.com/watch?v=fZR5I_AY7hs

(*) – Estagiária sob supervisão de Jozane Faleiro