Por Marina Vidal (*)
O Sempre Um Papo recebeu a doutora em psicanálise Maria Rita Kehl para falar sobre o seu mais recente livro “Ressentimento” (Boitempo Editorial). Esta foi mais uma edição do projeto que está acontecendo de forma virtual, devido à pandemia do Covid-19. A conversa foi mediada pelo jornalista Afonso Borges, no dia 3 de setembro de 2020, sendo transmitida pelo Youtube, Facebook e Instagram do Sempre Um Papo.
A autora conta que sua obra é de 2004 e foi reeditada. “Provavelmente, a temática do ressentimento se originou após uma análise dos pacientes. Talvez eu tenha percebido na minha clínica pessoas ressentidas, que diziam frases como: nunca vou perdoar, nunca vou esquecer. As pessoas se amargando com uma coisa que podiam deixar para trás, mas carregam com elas e fazem questão de alimentar essa mágoa”.
Para escrever o livro, ela se embasou em Friedrich Nietzsche, Valery Todorovsky e utilizou o livro São Bernardo, de Graciliano Ramos, como exemplo de personagem ressentido. “Para Nietzsche, entre os aspectos que definem a covardia de uma pessoa apequenada, o ressentimento é um dos que ele lista e eu achei interessante. A pessoa fica a vida inteira alimentando uma mágoa, não tem para onde ela se expandir muito porque ela tem que mostrar o tempo todo algum mal que alguém fez para ela. Como é que ela pode estar feliz e ter sucesso em alguma coisa se ela tem que ficar comprometida com essa mágoa?”.
Maria Rita Kehl explica que a pessoa ressentida não consegue ser ativa em relação aquele sofrimento e perdoar porque ela mantém a culpa no outro. “O ressentido é reativo. O proativo inventa um jeito de sair da situação ruim onde ele está, faz alianças, convoca os outros para ajudar e o ressentido não, justamente por ele estar comprometido com essa amargura, com essa queixa, com essa acusação”.
Para ela, estas pessoas são ressentidas porque não estão interessadas em perdoar. “Elas estão interessadas em manter um culpado, que não é só o culpado pelo sofrimento que aconteceu lá atrás, é um culpado pelo fato de que sofre. Mas, nem todo queixoso é ressentido. O ressentido é aquele que alimenta uma queixa e está interessado em alimentá-la porque ele não quer se deparar com o fato de que em algum momento ele não lutou”.
A doutora em psicanálise também contou que integrou, entre 2012 e 2014, a Comissão da Verdade e escutou dezenas de depoimentos de vítimas de tortura e parentes de desaparecidos políticos da Ditadura. “Os parentes de desaparecidos políticos nunca vão perdoar o Estado e não devem perdoar. São dois tipos de não esquecer. Um esquecer é você ficar como eterna vítima que não luta, que quer que o outro se sinta culpado, outro é o não esquecer no sentido de busca e luta pela justiça, e enquanto você estiver lutando pela justiça você não pode esquecer. Você continuar lutando não é ressentimento, ressentimento é de quem não luta”.
A convite de Afonso Borges, Maria Rita Kehl explica algumas formas de se tratar o ressentimento, mas não é algo genérico porque os casos são tratados de maneira individual. “É preciso tentar fazer com que a pessoa entenda que interesse ela tem, que tipo de necessidade ela acha que vai satisfazer não se desapegando dessa mágoa. Mas acho que o melhor jeito de tratar, embora cada um é um, é apontar que ela está cultivando essa mágoa que não quer se livrar e que isso está envenenando a vida dela, envenenando as relações, deixando-a infeliz”.
Para concluir, Maria Rita Kehl despede-se com um conselho para enfrentarmos os tempos de pandemia. “A gente tem que acionar a imaginação todo dia para não desanimar”.
Essa conversa na íntegra pode ser assistida nas redes sociais do projeto, Instagram e Facebook e no canal do Sempre um Papo no Youtube, por meio do link: https://www.youtube.com/watch?v=22X8TD_DiVw&t=2312s
(*) – Estagiária sob supervisão de Jozane Faleiro