Banquete cultural e midiático mais diverso

Por Marina Vidal (*)

O Sempre Um Papo recebeu a jornalista Flávia Oliveira e a escritora Conceição Evaristo para falarem sobre o tema “Mídia, cultura e diversidade”. Esta foi mais uma edição do projeto que está acontecendo de forma virtual, devido à pandemia do Covid-19. A conversa foi mediada pelo jornalista Afonso Borges, no dia 17 de julho de 2020, sendo transmitida pelo Youtube, Facebook e Instagram do Sempre Um Papo.

Flávia Oliveira acredita que a mídia é fundamental para a inclusão da diversidade na sociedade brasileira. “O primeiro papel que eu vejo para mídia é jogar luz, jogar os holofotes, notar essas assimetrias, falar delas e cobrar providências”, afirmou a jornalista, que acredita que no século XXI a imprensa precisa realizar uma observação ativa e combativa, diferente de seu costume contemplativo e neutro.

Entretanto, com a chegada do coronavírus ao Brasil, Flávia pensa que o jornalismo conseguiu, em certa medida, propor um novo debate. “Me parece que o jornalismo fez um movimento muito importante ao fazer uma opção radical pela ciência como fundamento da cobertura jornalística desse momento, o que devolveu credibilidade e relevância para a imprensa brasileira, que estava sofrendo muitos ataques”. Para ela, apesar de a inclusão de causas sociais e diversidades na cobertura midiática estar em fase de crescimento, essa tendência ainda precisa ampliar muito. “A cobertura foi ancorada na ciência, mais ativa, mais combativa, como jamais foi nesses tempos recentes, porém ainda resguardando um privilégio que já existia e que não foi superado”.

Conceição Evaristo acredita que esse momento de pandemia tem acentuado a procura pela mídia, principalmente, digital. “Acho que hoje não tem mais como fugir da mídia”. A escritora falou do relevante papel da imprensa na educação, mas lembrou que esta não substitui o professor. “Acredito que hoje, a mídia e a educação, mais do que nunca, têm que dialogar”.

Reformas culturais

Para Flávia, a cultura é de extrema importância para se viver bem, mas a cultura que ganha visibilidade é hierarquizada, hegemônica, masculina, branca e pertencente ao eixo Rio de Janeiro-São Paulo e, por isso, não sacia a nossa fome de cultura. “Falo da necessidade de um banquete cultural igualmente diverso. Esse banquete da cultura precisa ter Conceição Evaristo, quadrilhas e cirandas, bumba meu boi, samba, pagode, rodas, circo, artistas de rua”. Com a pandemia, todos os produtores culturais ficaram prejudicados, mas de formas diferentes. Os artistas que tinham mais visibilidade conseguiram se mostrar, mesmo com outra intensidade e não sendo tão bem remunerados como costumavam. Os outros foram precarizados sob o risco de desaparecimento. “Acho que a gente precisa repensar o que costumava chamar de cultura e incorporar todas as culturas nesse banquete pós Covid. Porque a cultura que queremos, precisamos e merecemos não é a cultura que tínhamos”, disse Flávia.

A cultura negra também foi abordada por Conceição como a cultura que não é valorizada pela sociedade. “Toda vez que artistas encabeçam um movimento pela cultura os nossos artistas negros estão lá apoiando também, muitas vezes elas são incorporadas ou elas tem êxito. Mas quando se trata de incorporar projetos negros, por exemplo o teatro negro, continuamos de fora”. Ela explicou que muitas vezes o movimento social negro pauta e serve de base para demandas sociais da classe média. “Mas na hora da repartição do bolo, quando a gente ganha, a gente ganha a menor parte”.

Para encerrar, as convidadas destacaram a relevância de aproveitar esse momento que estamos vivenciando para refletir sobre a heterogeneidade, a riqueza, a potência do povo brasileiro. “Me parece que nesse momento vamos mesmo revisar comportamentos, inventariar conquistas e desejos para que a sociedade seja pautada na diversidade que o povo brasileiro exibe mas que não está representado nos espaços de modo geral da sociedade brasileira. A diversidade será capaz de nos unir e de nos levar para frente”, acredita Flávia Oliveira. Conceição Evaristo partilha dessa ideia e diz que é um momento de revigorar. “A cultura ela tem poder de nos revigorar. A gente pode pensar a cultura como a sustância, e é a sustância que nos coloca de pé”.

Essa conversa na íntegra pode ser assistida nas redes sociais do projeto, Instagram e Facebook e no canal do Sempre um Papo no Youtube, por meio do link: https://www.youtube.com/watch?v=jwHU0WYGlqQ

(*) – Estagiária sob supervisão de Jozane Faleiro