Juraci Siqueira: o Trovador da Amazônia

É no número cem da Passagem da Felicidade que mora um legítimo poeta da Amazônia: um “filho do boto” que carrega consigo as lendas e tradições da região norte do Brasil. A rua é apertada, só passa um carro. Nas paredes, junto ao portão, ainda é possível perceber a pintura artesanal feita em comemoração à última Copa do Mundo, em tons de verde-amarelo. Logo um senhor baixinho e risonho vem nos receber. É Antônio Juraci Siqueira, nosso convidado para mais um Sempre Um Papo.

Pela primeira vez, vamos fazer um encontro para falar de poesia e filosofia, mas com duas pessoas completamente distintas, apesar de terem o mesmo nome. Antônio Cícero é um super escritor, membro da academia, ex-professor universitário, com formação na França, que escreve músicas para grandes artistas da MPB, incluindo sua irmã Marina Lima. Já Antônio Juraci Siqueira tem o conhecimento popular e conhece como poucos as tradições e os ritos do povo paraense. No palco, os dois foram craques. Cada um à sua maneira encantaram o público com suas idéias. Mas uma coisa impressionou a todos que ali estavam: a riqueza da obra e a simplicidade dos livros de Juraci Siqueira.

Logo na entrada da casa sou recebido por poemas. Castro Alves está na porta da sala, como uma guirlanda de Natal, escrito numa plaquinha de madeira. Nas estantes, centenas de troféus, medalhas e diplomas nos fazem sentir como na sede de um time de futebol. “É o jogo das letras”, explica o novo amigo poeta ao mostrar seus mais de 200 prêmios literários. Logo pergunto por seus livros. Em especial, pelo último. A resposta vem com uma negativa, pois não há último na obra de Juraci Siqueira. Todos os livros são feitos artesanalmente, por ele mesmo, no quintal de sua casa. Todo dia tem reimpressão.

Das idéias surgem versos que logo se transformam em poesia pura. Brincando com palavras como jogo de pique-pega, o poeta cria. E se diverte com isso. “Quando acerto a mão e ganho, vibro sozinho, em silêncio. Quando perco, parto pra outra, sem mágoa nem rancor”. É assim que ele vê o fazer literário: um jogo divertido.

Dizem que livros são como filhos para o escritor. Se for assim, Juraci é um irresponsável pois nem sabe quantos têm. Tudo é motivo para uma nova obra de poemas, trovas, casos da sabedoria popular, piadas e até adivinhações. Depois do texto pronto é a vez de dar forma ao livro. Com a ajuda de amigos, ele aprendeu a trabalhar com o computador e, sozinho, diagrama cada página. Outros camaradas fazem as ilustrações que se juntam ao texto manualmente, recortados com tesoura e colados com cola branca. Como num trabalho escolar, a matriz do livro toma forma. Depois disso é só tirar xerox na papelaria da esquina, dobrar as páginas na metade e grampeá-las ao meio. Para ficar mais bonito, o próprio criador/autor colore suas capas, borrifando tinta colorida com uma bomba daquelas de inseticida.

Assim nasce um livro de Antônio Juraci Siqueira, mais um poeta que (graças a Deus) não teve a paciência de esperar por anos a oportunidade para publicar seus livros em uma grande editora, como é o sonho de todos. Por isso, prefere fazer tudo manualmente. Cada livro custa três reais e é vendido diretamente pelo criador, sem intermediários. Assim, além de boa poesia, o leitor ainda pode ter uma boa prosa com o autor.

Foi essa prosa que me chamou a atenção na manhã de hoje. Sem editora, distribuidor, livraria e divulgação de massa, o Trovador da Amazônia vai conquistando o público e, sem querer, despertando a atenção das pessoas para a delícia que é ler.

:: Rafael Araújo, de Belém