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“Pessoas inteligentes dificilmente conseguem sentir ódio”

24 de março de 2021

Texto: Marina Vidal – estagiária sob supervisão

O Sempre Um Papo abriu a programação de 2021, ano que comemora 35 anos de realização ininterrupta, realizando uma série de encontros com respeitados autores da atualidade. No dia 23 de março, os convidados foram a escritora e filósofa Marcia Tiburi e o pesquisador e psicanalista Rubens Casara para o lançamento do livro “Um Fascista no Divã” (Editora Nós), obra que propõe uma reflexão sobre o risco do neofascismo no Brasil. Esta foi mais uma edição do projeto que está acontecendo de forma virtual, devido à pandemia do Covid-19. A conversa foi mediada pela editora Simone Paulino, sendo transmitida pelo Youtube, Facebook e Instagram do Sempre Um Papo.

A ideia inicial do livro, segundo Rubens Casara, era criar uma peça de intervenção para refletir como o brasileiro, que é um povo historicamente vinculado a ideia de alegria, pode tão facilmente ceder ou ficar seduzido por discursos autoritários e usar o teatro como espaço de resistência contra o crescimento do pensamento autoritário. “Esse livro nasceu de uma conversa que eu e Marcia tivemos com José Celso Martinez Corrêa, na qual ele contava que sempre que via o público em seu teatro aumentar, percebia que o autoritarismo estava aumentando na sociedade, que as pessoas procuravam o teatro como uma espécie de resistência a esse crescimento do pensamento autoritário, a esse empobrecimento subjetivo presente em todo momento autoritário da vida brasileira”. 

O livro fala sobre um conflito de ideais entre uma psicanalista, que se pauta na ciência, e seu paciente fascista, que se orienta por suas crenças. Para Marcia, esse texto tem caráter de urgência no Brasil, pois a obra é profética, já que foi escrita entre 2016 e 2017 e previu os rumos que o país iria tomar. “As pessoas tinham muitas reticências em relação a nossa peça, e que tem que ser levadas a sério. Só que aquela desconfiança e aquele medo das pessoas, já revelava o Brasil que estava se construindo, um Brasil amedrontado com o que poderia vir e veio”. 

Outra crítica que receberam, segundo a escritora e filósofa, se refere a estereotipificação demasiada do personagem fascista. “A gente queria mostrar um personagem estereotipado porque uma personalidade autoritária, um fascista típico, é um estereótipo de uma quantidade inacreditável de preconceitos. Ele tem frases clichês porque faz parte da personalidade autoritária expor clichês, repetir clichês”. 

O título da obra “Fascista no Divã” teve origem, segundo Rubens, da necessidade de fazer uma fascista falar e de um pensamento sobre o que faria um fascista falar. “A ideia do fascista no divã era uma grande brincadeira até colocando em questão um discurso muito frequente na psicanálise que é de que os canalhas não tem direito a psicanálise”. Por isso, os autores tiveram a ideia de o personagem principal ser um fascista que vai se candidatar à presidência e precisa falar com alguém que não propagaria o que ele pensava. “E brincar também com uma coisa mais séria que é a existência de um fascista em potencial em cada um de nós”, completou o pesquisador.

Por isso, a ideia da peça é que seja uma comédia à princípio, mas que ao decorrer do texto as pessoas passem a tomar consciência sobre as consequências que discursos como o do personagem fascista podem provocar. “O texto todo parte da tentativa de fazer com que as pessoas, no primeiro momento, se divirtam e depois percebam que aquilo em relação ao qual elas estavam rindo, na realidade vai ser a causa do sofrimento posterior. Nossa peça tenta, o tempo todo, fazer com que as pessoas que estão assistindo à peça ou lendo o livro passem a refletir também em que medida elas não estão contribuindo para o crescimento do pensamento autoritário”, afirmou Rubens Casara.

Marcia acredita que o fascismo é sempre um fenômeno de massa e um jogo de linguagem. “O fascismo é uma fórmula que é elaborada e transmitida linguisticamente e que produz um tipo de massa. A minha tese é que você pode construir a massa fascista. Então, você não desperta pura e simplesmente, claro que tem potenciais autoritários, recalcamentos, ressentimentos, afetividades mal resolvidas, mas o ódio é uma coisa que você planta. E para plantar o ódio você precisa ter gente confusa, que não entendeu direito o que que está acontecendo. Pessoas inteligentes dificilmente conseguem sentir ódio”. 

Acompanhe a conversa na íntegra pelas redes sociais do projeto, no Instagram e Facebook e no canal do Sempre um Papo no Youtube, com acesso pelo link: https://www.youtube.com/watch?v=GtVGnYZ0cdc

FRASES:

“Faz parte da personalidade autoritária expor clichês”.  – Marcia Tiburi, 23/03/2021

“Sempre que via o público em seu teatro aumentar, percebia que o autoritarismo estava aumentando na sociedade”. – Rubens Casara, 23/03/2021

“As pessoas procuravam o teatro como uma espécie de resistência a esse crescimento do pensamento autoritário”. – Rubens Casara, 23/03/2021

“A ideia de um compromisso pela verdade é substituída pela certeza. E a lei simbólica, aquele limite externo seja moral, ético, jurídico, ele é substituído por uma lei imaginária. E o que está na cabeça do fascista é o que vale. Ele apresenta aquilo que está na cabeça dele como sendo de interesse público”. – Rubens Casara, 23/03/2021

“Existe essa certeza delirante. O paranoico é um sujeito fechado na sua idiossincrasia, fechado na sua fantasia. O paranoico é um sujeito que não está aberto ao outro”. – Marcia Tiburi, 23/03/2021

“A paranoia está compartilhada”. – Marcia Tiburi, 23/03/2021

“O fascismo é sempre um fenômeno de massa”. – Marcia Tiburi, 23/03/2021

“O ódio é uma coisa que você planta”. – Marcia Tiburi, 23/03/2021

“Para plantar o ódio você precisa ter gente confusa”. – Marcia Tiburi, 23/03/2021

“Pessoas inteligentes dificilmente conseguem sentir ódio”. – Marcia Tiburi, 23/03/2021

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