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A arte de escrever para libertar, proporcionar pensamento crítico e reivindicar

15 de outubro de 2020

Texto: Marina Vidal – estagiária sob supervisão

O Sempre Um Papo recebeu Frei Betto para debate e lançamento do livro “Diário de Quarentena – 90 dias em fragmentos evocativos” (Ed. Rocco). Esta foi mais uma edição do projeto que está acontecendo de forma virtual, devido à pandemia do Covid-19. A conversa foi mediada pelo jornalista Afonso Borges, no dia 15 de outubro de 2020, sendo transmitida pelo Youtube, Facebook e Instagram do Sempre Um Papo.

No encontro, Frei Betto lembrou que foi o primeiro escritor convidado para participar do Sempre Um Papo.  Sobre sua inspiração para a escrita da obra em lançamento ele conta que a obra “registra 90 dias de mim na quarentena, tendo nascido da minha necessidade de escrever durante esse período de reclusão”. Frei Betto utilizou como comparativo o período da Ditadura, em que ficou preso, para analisar em seu livro a experiência de reclusão na quarentena. “Eu escrevia cartas para a família, para os amigos, para os meus confrades. E, nessas cartas, eu procurava por um lado consolar aqueles que estavam aqui fora e que, de certa maneira, sofriam mais do que eu que estava lá dentro. E, de outro lado, eu buscava fazer denúncias do que se passava nas masmorras da Ditadura e muitas cartas saíram clandestinamente de onde eu estive”, disse o autor após explicar que essas cartas foram reunidas e publicadas. 

Frei Betto contou que acredita que as cartas foram fundamentais para manter sua sanidade mental.  “A escrita é um exercício terapêutico”. E foi por isso que ele decidiu fazer um diário, após ter lido vários diários. “A diferença do meu diário, esse diário de quarentena, é que eu não sou o personagem principal. Os outros sim, o autor é o personagem principal.  Aqui estão reflexões, tem minicontos, tem ensaios políticos, tem textos de espiritualidade, tem poema, tem um pouco de tudo, é quase um almanaque, por isso que são fragmentos evocativos”, define.

Provocado por Afonso Borges, o autor relatou como está se sentindo nesses tempos de pandemia. “Estou me sentindo bem aqui, eu consigo ter uma boa disciplina, que antes da pandemia não era tão rigorosa como agora. Me lembro que na prisão tinha uma disciplina muito rigorosa que consiste em todos os dias fazer exercícios físicos, cuidar da alimentação de modo que ela seja saudável, ler muito, me dedicar pelo menos uma hora por dia a meditação, que é minha forma preferida de oração, e escrever”. Ele ressalta que  a sua visão do que acontece no Brasil e no mundo está muito bem retratada no Diário de Quarentena. “É uma visão pessimista, no sentido de que eu fico horrorizado com a maneira como o Governo brasileiro ficou indiferente a essa pandemia, fez total descaso dela e de suas consequências”, completa. 

Frei Betto lembra que, desde 1987, reserva 120 dias do ano só para escrever.  “Por isso, que eu produzo muito, tenho que escrever artigos toda semana, o que me salva são esses 120 dias. Escrever, realmente, é o que me dá muita alegria. A ficção é o que eu mais gosto de fazer e menos posso fazer em decorrência das minhas militâncias”, confidencia. 

Quando parabenizado pelo Prêmio Nobel da Paz, concedido ao Programa Mundial de Alimentos da ONU, do qual faz parte, Frei Betto, ele confessa ser um exagero. “Eu acho que o importante não é receber esse mérito, eu acho importante saber que o Prêmio Nobel reconheceu, que é o maior drama da humanidade, a fome. O que me escandaliza é não haver nenhuma mobilização social de combate a fome. Isso porque o planeta tem recursos para acabar com a fome, o planeta produz mais alimentos do que bocas, mas não há falta de alimentos, há falta de justiça”, acredita. 

Arte, cultura e espiritualidade

“O papel da arte é fundamental, porque ela nos faz transcender, e também alimenta a nossa consciência crítica”, afirma Frei Betto. “Todos nós temos espiritualidade e é ela que realmente imprime e impulsiona a nossa existência, porque a gente é tanto mais feliz quando imprime a ela um sentido.  E esse sentido é fundamentalmente simbólico e espiritual, e está calcado na arte e na cultura”.

Para Frei Betto, hoje está havendo uma verdadeira inquisição contra tudo aquilo que é expressão de arte e cultura. “Nossa cultura é extremamente rica, mas pouco valorizada. O Brasil precisa reagir porque nós temos uma cultura muito rica, muito diversificada, vem desde os nossos indígenas, passando pela população negra, pela população imigrante, aqueles que vieram do exterior e ajudaram a construir o país”. Para ele,  o capitalismo veio atropelar muitas expressões culturais que não são propriamente comercializáveis. “Então, aquelas que tem valor de mercado evidentemente tem muito mais impacto na opinião pública do que aquelas que são grandes obras de arte, são grandes criações culturais, expressões culturais, mas porque não tem valor no mercado, nem chegam a ser conhecidas”, explicou o convidado.

O livro “Diário de Quarentena – 90 dias em fragmentos evocativos” está disponível para compra pelo site da editora: rocco.com.br e em sua livraria virtual: freibetto.org, que contém todos os seus 69 livros. Frei Betto já tem dois novos livros prontos, com publicaçnao prevista para 2021.

Essa conversa pode ser assistida nas redes sociais do projeto, Instagram e Facebook e no canal do Sempre um Papo no Youtube, por meio do link: https://www.youtube.com/watch?v=cORPIgcO9BU&t=289s

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