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“A história brasileira é uma história de insubmissões”

21 de setembro de 2020

Vladimir Safatle e Antônio Teixeira conversam sobre o livro “Maneiras de Transformar Mundos” no Sempre Um Papo

Abriram-se os caminhos da filosofia e da psicanálise, que explicam os acontecimentos da agitada pós-modernidade, em mais uma edição do projeto Sempre Um Papo, que está acontecendo de forma virtual devido à pandemia do Covid-19. Realizado em 9 de setembro de 2020, o programa recebeu o filósofo e escritor Vladimir Safatle e o psicanalista e também escritor Antônio Teixeira. O tema da conversa, mediada pelo idealizador do projeto Afonso Borges, foi o mais recente livro de Safatle: “Maneiras de Transformar Mundos – Lacan, Política e Emancipação” (Ed. Autêntica).

Vladimir reflete que em momentos difíceis como o que estamos vivenciando no Brasil, devemos nos voltar para aqueles textos, autores e tradições que constituíram o nosso horizonte crítico e fundaram o nosso desejo de transformação. E foi exatamente essa a sua intenção ao publicar o livro em 2020. Ele explica que sua nova obra propõe uma introdução à teoria psicanalítica. Para isso, ela se inclina sobre algumas das principais noções trabalhadas por Jacques Lacan, como identificação, transferência, gozo e ato.

Impulso revolucionário

Diante do autoritarismo nacional, segundo Safatle, a psicanálise nos ensina que, no lugar de protestar contra uma situação, é necessário interpretá-la. “Os estudos psíquicos podem nos fornecer as bases funcionais da nossa revolta, pois nela há, além das causas sociais e históricas, uma espécie de impulso revolucionário. Dessa maneira, mesmo que as estruturas sociais sejam muito refratárias, há algo nos sujeitos que força o sistema a ser um pouco mais receptivo, até para que haja sobrevivência”, explica.

Com olhos críticos e atentos, Antônio Teixeira enriqueceu o bate-papo com suas impressões acerca da obra e do autor. Para ele, Vladimir é um filósofo clínico, isto é, um profissional que se preocupa em analisar uma situação e estabelecer um diagnóstico do presente. “Existe na caneta de Safatle uma herança do bisturi, pois ele tem um pensamento que opera através de dissecações, com o cuidado de expor com exatidão a superfície clara de um problema que antes era invisível, ” afirma. 

Reforçando suas impressões do livro, Antônio pontua que a obra deixa claro que a intimidade de cada um pode ser considerada uma verdadeira teoria política, na medida em que a instauração da “vida psíquica” está associada às modalidades de “sujeição social”, ou seja, a maneiras singulares de sofrimento – de mal-estar e de desconforto na sociedade. “A política é o horizonte que norteia a ideia de emancipação. Pensando nisso, Safatle a emprega aliada à psicanálise como um dispositivo crítico e uma prática transformativa contra a dominação conformista”, completa.

Fascismo e incapacidade de lidar com a diferença

 Quando o assunto é política, a palavra “fascismo” lidera na categoria “o que é?” – e encontra ressonância na realidade vivida no Brasil. Por isso, não seria uma conversa completa se não houvesse um desdobramento sobre essa ideologia. Para Vladimir Safatle, diferentemente do que boa parte das pessoas acredita, a experiência do fascismo seria o pano de fundo das elaborações lacanianas sobre o Eu, que ressaltam a agressividade, a rigidez e a redução narcísica do outro – em suma, a incapacidade de lidar com a diferença. “Não se trata de dizer que em situações específicas se nasce o fascismo, ele é um elemento normal do Eu moderno, que através da insegurança se legitima pela violência”, pontua.

Antônio Teixeira acrescenta que, há dez anos, acreditava que a ideologia política do fascismo estava distante e que, ao escrever “Maneiras de Transformar Mundos”, Vladimir reforça que devemos encontrar novas alternativas para lutar contra o neofascismo. “Ao protestar contra uma situação, podemos terminar sempre por entrar no discurso que a condiciona, que a torna possível, indicando, sem intenções, as correções necessárias para que ela se torne suportável”. 

Por fim, questionado se há espaço para o otimismo frente ao que vivenciamos no país, Safatle é direto: “A história brasileira é uma história de insubmissões”.

Assista a conversa com Vladimir Safatle e Antonio Teixeira no link: https://www.youtube.com/watch?v=6ws03Inflvw . O encontro também está disponível no Instagram e Facebook do projeto. 

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