Eu fiz uma seleção de livros para quem quiser entender melhor a conjuntura política, econômica e religiosa do Oriente Médio. Na pauta, este horroroso conflito entre Israel e a Faixa de Gaza, que nos pegou em pleno natal e entrou dois mil e nove. São eles:
O Mundo Muculmano, de Peter Demant, A Cicatriz de David, de Susan Abulhawa, Toda Casa Precisa de Varanda, de Rina Frank, Porta do Sol, de Elias Khoury, A Chave de Casa, de Tatiana Salem-Levy, Judite no País do Futuro, de Adriana Armony, Em Busca de Fátima, de Ghada Karmi, Sonhando a Palestina, de Randa Ghazy, Pobre Nação, de Robert Fisk e Israel Terra em Transe, de Bila Sorj e Guila Flint.
Se não não guardou os nomes, não tem problema. A lista, com uma pequena síntese de cada um, está no www.mondolivro.com.br e no site da Guarani FM, www.guaranifm.com.br
O MUNDO MUÇULMANO
Peter Demant, Editora Contexto
Nos últimos quinze anos, dezenas de livros têm sido publicados em inglês, francês e alemão sobre o mundo muçulmano e seu complexo relacionamento com o Ocidente. Desde os atentados terroristas contra as torres gêmeas em Nova York, em 11 de setembro de 2001, o que antes era um rio se transformou em cachoeira. No entanto, até aqui, infelizmente pouco ou quase nada de relevante se publicou em português sobre o tema. Este livro espera contribuir para preencher tão incômoda…
Os muçulmanos constituem uma ameaça ao mundo ocidental? O islã é uma religião de violência? Por que o islamismo é a crença que mais cresce em todo o planeta? Como sua bela e rica tradição cultural convive com a profusão dos homens-bomba, dos atentados em série e do terrorismo em larga escala? Para responder a essas e outras perguntas, Peter Demant, um dos maiores especialistas internacionais no assunto, escreveu O mundo muçulmano, um livro provocativo e esclarecedor. Uma obra monumental do ponto de vista histórico, que rastreia as origens do mundo muçulmano, discute seus impasses contemporâneos e aponta as ações que precisam ser desencadeadas para se evitar uma ameaçadora “guerra entre civilizações”. A tarefa é complexa – e da maior urgência. Este livro procura colaborar com ela.
A CICATRIZ DE DAVID, DE SUSAN ABULHAWA
Seu nome foi Ismael até o dia em que um soldado israelense o levou embora. Ficava para trás a história de um menino palestino, habitante do campo de refugiados de Jenin, em 1948. Dali em diante, o pequeno iria se chamar David, raptado por um oficial cuja esposa sonhava ter um filho. Educado segundo os preceitos da religião judaica, o jovem seguirá para o front vinte anos depois, durante a Guerra dos Seis Anos, onde se defrontará com o irmão Yousef, combatente da causa palestina. É o início de uma longa jornada em busca da identidade de um homem partido ao meio. A cicatriz de David é um romance pungente, que tenta entender uma das mais intrincadas questões geopolíticas.
Susan Abulhawa é filha de refugiados palestinos. É colaboradora das publicações New York Daily News, Chicago Tribune, Christian Science Monitor, Philadelphia Inquirer.
“De tempo em tempos uma obra literária transforma o modo como as pessoas pensam.”
Library Journal
TODA CASA PRECISA DE VARANDA, RINA FRANK
Quando os Frank se mudaram da Romênia para Israel, o pai, Mosco, a mãe, Bianca, e a filha de oito meses do casal, Iosefa, ganharam uma pequena cozinha sem janelas para morar. Um ano depois, quando a segunda filha nasceu, o pai ficou tão decepcionado com “essa que não sabe fazer meninos” que sua irmã Lutchi, que amava o irmão mais jovem e era dona do apartamento, deu-lhes um quarto que ficava de frente para uma magnífica varanda. Havia varandas em todos os prédios da rua Stanton. Sentar na varanda era como sentar na poltrona para ver televisão. Foi dessa maneira que a caçula Rina Frank aprendeu a ver a vida. Em sua autobiografia, Toda casa precisa de varanda, ela alterna lembranças de sua infância pobre em Israel com os primeiros anos de sua vida adulta, quando arranja um emprego e se apaixona por um rico judeu de Barcelona.
PORTA DO SOL, DE ELIAS KHOURY
Em um campo de refugiados nas cercanias de Beirute, o velho Yunis repousa em coma profundo. Há três longos meses, o herói da resistência palestina jaz inerte sobre o leito do improvisado Hospital Galiléia. Morto ou vivo? Alheio ou consciente? São essas as perguntas feitas por Khalil, médico e filho espiritual do enfermo. Negando-se a aceitar o fato de que seu herói talvez nunca mais volte à consciência, o jovem seguidor se mantém em vigília constante, repassando – tal qual Xerezade dos dias de hoje – a extraordinária história de vida de Yunis, que é, nada menos que a saga do povo palestino. Valendo-se das histórias contadas e recontadas ao longo dos anos nos campos de refugiados palestinos, o libanês Elias Khoury entretece, magistralmente, o meio século de história de um povo.
“Porta do sol é um romance rico e realista, uma imponente e genuína obra de arte.”
The New York Times Book Review
“Elias Khoury cria um memória polifônica para os milhares de palestinos que tiveram de abandonar sua terra em 1948.”
Le Monde
A CHAVE DE CASA, TATIANA SALEM-LEVY
Neta de judeus turcos e filha de exilados durante a ditadura no Brasil, a narradora recebe do avô a chave que abriria a porta da casa de Esmirna, onde ele havia morado na Turquia, e faz desta procura pelas raízes da família o início de uma viagem de questionamentos sobre si própria. “(…) a estreante Tatiana Salem Levy chega, neste A chave de casa, ao ponto que muitos almejam e bem poucos alcançam: condensar o jorro da memória e transformá-lo em literatura”, elogia a escritora Cíntia Moscovich.
JUDITE NO PAÍS DO FUTURO, DE ADRIANA ARMONY
Aqui, a carioca Adriana Armony faz ficção inspirada em uma história muito próxima: a de sua avó paterna. Através da trajetória de Judite, que emigra da Palestina para o Brasil após a Primeira Guerra Mundial, a escritora, que estreou na literatura com A Fome de Nelson, busca um universo folhetinesco sem deixar a precisão histórica. “A idéia surgiu das histórias da minha avó Judite, publicadas numa revista judaica, e que sempre me fascinaram. Fiquei mais ou menos um ano envolvida com este projeto”, conta. Para escrever Judite no país do futuro, a autora pesquisou sobre a história do Estado de Israel e sobre a cidade de Tzfat, onde nasceu a cabala luriânica, também citada na obra. Leu bastante sobre a imigração judaica no Brasil e sobre as polacas.
EM BUSCA DE FÁTIMA, DE GHADA KARMI
Permite compreender os dramas psicológicos ligados ao exílio que continuam ainda hoje a impulsionar a causa árabe. Karmi reconstrói a experiência de sua própria família, palestina, vivendo em Jerusalém no final da década de 1940. Mais nova de três irmãos, ela ainda era criança quando o aumento das tensões entre judeus e palestinos – após o massacre na pequena aldeia de Deir Yassin – a obrigou a fugir de casa. Deixando para trás o cão de estimação e a amada Fátima, empregada da família. De Damasco, onde se refugiou inicialmente, a família foi para Londres. Na capital britânica, Karmi passou a se ver cada vez mais como ocidental ao mesmo tempo em que seus pais e irmãos continuaram a se perceber como árabes. Inevitavelmente, seu relato diverge da versão oficial de Israel; mas, ironicamente, sua história encontra muitos ecos na experiência judaica do exílio e nos problemas de identidade e assimilação. Seus pais jamais se recuperaram verdadeiramente da perda da pátria, experiência que para eles não significou apenas um trauma, mas, sobretudo, uma vergonha. A própria autora passou anos negando suas origens, cultivando com afinco uma identidade britânica. Foi apenas em 1967, com a derrota dos árabes na Guerra dos Seis Dias, que finalmente sentiu-se impelida a reaver suas raízes e tornar-se ativista.
SONHANDO A PALESTINA, DE RANDA GHAZY
Jovens de várias partes do mundo deixam suas impressões sobre os conflitos modernos e o terrorismo em blogs e sites cada vez mais acessados. A perda da inocência, a falta de perspectiva e uma insistente esperança são o material desses textos recheados de perplexidade. Em Sonhando a Palestina, a filha de egípcios Randa Ghazy, então aos 15 anos, capta com toda emoção da juventude, os corações e mentes de jovens imersos na luta pela independência palestina. O resultado é uma emocionada mescla de prosa e poesia, com a visão da adolescente sobre o conflito do Oriente Médio. Com mais de 300 mil exemplares vendidos apenas na Itália – número impressionante para o país -, o livro se tornou best seller também na França – onde é grande a comunidade de imigrantes islâmicos -, apesar dos protestos: muitos taxaram a obra de antisemita. Nos Estados Unidos, o livro, editado em 14 países, foi recebido com imensa polêmica e ameaças de boicote. Apesar de ficcional, surpreende pela intensidade e verdade. Randa apresenta o cotidiano e a experiência dos que vivem a Intifada e traz à luz as incontáveis histórias e imagens expostas na mídia sobre o conflito árabe-israelense.
RETRATO DO DESCOLONIZADO ÁRABE-MUÇULMANO E DE ALGUNS OUTROS, DE ALBERT MEMMI
Cinqüenta anos após as independências, o que aconteceu com o ex-colonizado? Foi para responder a essa pergunta que Albert Memmi se propôs a escrever uma espécie de prolongamento de seu clássico Retrato do colonizado – Retrato do colonizador. Publicado em 2006, propõe uma reflexão sobre as relações de dominação e dependência entre os homens. Memmi aborda, entre outros conflitos, a questão entre Israel e Palestina. Assim como o dilema da identidade cultural em um mundo dividido por ideologias políticas e religiosas. Sugere, ainda, que no despertar da descolonização global, o sofrimento das antigas colônias não deve ser atribuído aos colonizadores, mas aos líderes e governos corruptos que controlam esses Estados.
IMAGEM E REALIDADE NO CONFLITO ISRAEL – PALESTINA, DE NORMAN FINKELSTEIN
Em 2000 um livro polêmico sugeria um novo olhar diante da tragédia do Holocausto. Seu autor, Norman Finkelstein, professor da New York University, questionava os motivos para o interesse da mídia e de instituições governamentais pela questão judaica, gerando protestos e réplicas em toda a parte. A indústria do Holocausto transformou-se em um best seller, que permaneceu semanas nas listas de mais vendidos. O autor apresenta um estudo sobre o confronto do Oriente Médio e, mais uma vez, gera controvérsias. Norman Finkelstein desmascara as origens das representações acadêmicas e sociais que permeiam as raízes desse confronto e introduz o leitor nesse universo a partir de uma discussão dos fundamentos do sionismo. O autor analisa o “consenso ideológico” originário desse pensamento identificando três tendências distintas: o sionismo político, trabalhista e cultural.
“(…) o estudo mais revelador sobre o background histórico do conflito e das tentativas de acordos de paz.” – Noam Chomsky
POBRE NAÇÃO, DE ROBERT FISK
Se concentra na invasão israelense do começo da década de 1980 e suas terríveis conseqüências, incluindo o massacre de milhares de palestinos. Proibida no Líbano, a primeira edição do livro foi lançada quando o amigo de Fisk, o jornalista Terry Anderson, ainda era mantido preso pelo Jihad – ele só foi libertado em 1991, com outros reféns ocidentais -, o que acrescentou ao livro de Fisk relatos pessoais a respeito do conflito no Oriente Médio. No livro, Robert Fisk descreve a ferocidade da guerra civil libanesa, as subseqüentes invasões israelenses, a maneira pela qual as milícias libanesas não poupavam ninguém; oficiais da Marinha norte-americana, encurralados no horror do Líbano, se depararam com um fim terrível; e os israelenses, que, com a invasão de 1982, provocaram eles mesmos crimes de guerra hediondos.
“O maravilhoso livro de Robert Fisk sobre o Líbano é um dos mais completos dos últimos tempos, assim como um dos mais angustiantes e inquietantes. Sua abordagem sobre a invasão israelense de 1982 é uma das melhores já publicadas.”
Edward Said
ISRAEL TERRA EM TRANSE, BILA SORJ E GUILA FLINT
Oferece a oportunidade de conhecer mais sobre o fundamentalismo religioso judaico. Para tanto, Guila Flint e Bila Grin Sorj entrevistaram figuras importantes, destacadas e polêmicas em Israel e no judaísmo, que se posicionaram incisivamente diante da questão que é o subtítulo da obra: democracia ou teocracia? Dilema pertinente não só ao Estado de Israel, ao Oriente Médio ou a algumas religiões, mas a todos nós.
“É uma das coisas que mais me fascina em Israel: todas as grandes religiões monoteístas, com sua pregação pela paz, terem alguns de seus maiores símbolos sempre cercados pelos símbolos da guerra. Essa explosiva mistura já justificaria o título deste livro ( israel – erra em transe). Mas as autoras foram além, muito além, da superfície nesse mergulho que fazem na terra em transe.”
Clóvis Rossi











