Stella Florence em Artigo Exclusivo

Crônica ??? Stella Florence ??? tema: O corpo não fala: grita
Stella Florence

Há cerca de um mês passei por uma das mais dolorosas experiências da minha vida ??? e, ao mesmo tempo, experiência das mais fecundas.

Era carnaval, um homem me chamou para sair, eu sou solteira, lá fui eu. Num determinado momento, na cama, supondo que era do meu agrado, ele torceu meus braços para trás. Eu não consegui reagir para dizer “não faça isso, eu não gosto de sentir dor”, apenas olhei para o espelho e me vi ali refletida, nua, sem anestesia.

O que doeu nos meus olhos não foi o ato em si, mas o que ele simbolizava: uma completa ausência de sentimento. Eu era um pedaço de carne sob o outro pedaço de carne, nada mais. Que as sexólogas modernas acendam a fogueira sob meus pés: eu, fêmea absolutamente sexuada, assumo que não tenho estrutura para suportar o sexo sem afeto.

Apenas algumas horas após esse encontro (ou deveria dizer desencontro?), eu acordei com os olhos inchados. Uma semana depois, eu viajava para o Rio como deficiente visual, com um funcionário me amparando. Me lembro perfeitamente de quando cheguei ao Rio e fui ao banheiro. Por um instante tirei os óculos escuros, me aproximei do espelho, abri os olhos inchadíssimos o máximo que pude e, com muita dificuldade, consegui ver que eles estavam cor de sangue. Durante dois dias, compromissos profissionais se misturaram a visitas a pronto-socorros, mas a verdade é que ? quela altura nenhum oftalmologista podia dizer ao certo o que eu tinha.

Mas eu podia. ??dipo, personagem da mais famosa tragédia de Sófocles, quando finalmente desvenda e aceita a horrenda verdade do seu destino, retira os grandes colchetes de seu manto e com eles arranca os próprios olhos. “Não quero mais ser testemunha de minhas desgraças, nem de meus crimes! Na treva, agora, não mais verei aqueles a quem nunca deveria ter visto, nem reconhecerei aqueles que não quero mais reconhecer!”.

O crime de ??dipo foi, inadvertidamente, ter matado seu pai, Laio, e se casado com sua mãe, Jocasta, com quem teve quatro filhos. O meu crime foi fingir para mim mesma que aquele tipo de relação me saciava. A única maneira de suportar a verdade para ??dipo foi arrancar seus olhos das órbitas. A única maneira que encontrei para ver que eu estava me deixando em frangalhos foi cegar a mim mesma. ?? aí que um simples resfriado, uma dor de garganta ou um mau jeito nas costas (doenças mais simples, claramente somáticas) podem nos dizer muitíssimo a respeito de nós mesmos. Nosso corpo fala: e quão potente é sua voz!

Ao voltar para São Paulo, percebendo o mundo apenas através dos cheiros e dos sons (meus outros sentidos ficaram extremamente sensíveis), finalmente foi possível detectar o que eram aqueles cacos de vidro que eu sentia dentro dos olhos, aquele inchaço brutal, aquela sensibilidade a qualquer sombra de luz. Eu tive uma manifestação aguda de adenovirus (a mais potente das conjuntivites), terçol e herpes no globo ocular: tudo ao mesmo tempo. Ao ouvir o diagnóstico, em vez de ficar horrorizada (afinal eu nunca tive herpes em lugar nenhum, vou ter justo no olho?), o que senti foi alívio: eu podia tratar do problema e ficar boa logo, o que de fato aconteceu.

Há uma sabedoria exemplar em como nosso corpo (em conluio com nossa alma) transforma a dor emocional que não queremos ver em dor física palpável. ?? uma maneira de nos acordar, talvez um último e desesperado recurso. Que possamos, então, ser sábios para ouvir os nossos próprios gritos.