Darcy Ribeiro, o uísque e a carne

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Eu fiz, provavelmente, o último lançamento em vida do Darcy Ribeiro. Foi em maio de noventa e cinto, no palácio das artes. Não houve debate, só noite de autógrafos. Ele tinha fugido do CTI, dizendo que se ficasse lá, morreria mais rápido. Pois é, os autógrafos começaram cedo, ali pelas dezenove horas. As pessoas chegavam com sacolas de livros antigos dele, foi uma noite emocionante. Acontece que ninguém entendia direito o que ele escrevia. Aí eu fiquei ao lado da mesa, traduzindo. Gente, ele deve ter autografado uns mil livros. Mas para as mulheres, todas as dedicatórias eram gentilezas, quase cantadas. Muito engraçado. Eu traduzia, a moça saía chorando. A mais engraçada era de uma conhecida produtora, que trouxe o livro debaixo do braço. Ele não perdeu tempo: o texto começava assim: moça do suvaco cheiroso…. Acabou ali pela meia noite e meia e fomos caminhando, pelo foyer do palácio das artes, ele segurando o meu braço e no da assessora dele. Ao chegar na porta, ele sentiu aquele ventinho da madrugada, olhou para a avenida Afonso pena, largou o meu braço e disse, animado: – Afonso, vamos comer uma carninha fatiada com uísque??? Eu virei pra ele e falei: menino !!! Já pro hotel !! A carninha não rolou, mas o uisquinho, sem dúvida.