DIÁRIO DA TARDE – 13/03/2006 – CADERNO 2
PROJETO – Duas décadas de bons papos – Por Vanessa de Oliveira
Completando hoje exatos 20 anos de existência, o projeto cultural Sempre Um Papo já alcançou façanhas expressivas. Além de colocar frente a frente público e escritor para um bate papo informal, descontraído, no qual é quebrado o mito do trabalho isolado dos autores, passando a revelá-los como literatos de carne e osso, com seus medos, limitações, anseios e dúvidas pertinentes a qualquer cidadão comum, o projeto alcançou números expressivos. Ao todo, são mais de 2 mil eventos, que ultrapassa um público de mais de 800 mil pessoas.
Criado e idealizado pelo jornalista e músico Afonso Borges, 44 anos, que na época era estudante universitário, o projeto surgiu de forma despropositada. Colocar os escritores para expor seus modus operandi e para falar de sua produção foi uma idéia que o músico havia encontrado para dar mais interatividade ao seu show, em um bar de BH, contando com a participação de escritores que no intervalos das músicas contavam histórias sobre seus livros e até revelam fatos sobre suas vidas. Em menos de seis meses, o projeto ganhou vida própria, saindo da noite boêmia para os principais palcos de Belo Horizonte.
De cara, o Sempre Um Papo começou com pé direito, com o escritor Oswaldo França Júnior, e teve ainda a façanha de ganhar a denominação Sempre Um Papo de Frei Betto, que também é o escritor que mais participou da programação ao longo desses anos. Aliás, mantendo-se esse elo, Frei Betto estará de volta no próximo dia 21, quando lança em Belo Horizonte o livro A Mosca Azul.
Por várias vezes o projeto bateu recordes de público, como as concorridas sessões com o Nobel de Literatura, o escritor português José Saramago, que no ano passado lançou aqui seu As Intermitências da Morte, e com Rubem Alves, também em 2005, com mais de 3 mil pessoas participando das duas sessões.
SENSO COMUM
De acordo com Afonso Borges, o projeto quebrou definitivamente o senso comum de que brasileiro não gosta de livros. ¨Tenho dados que contrariam isso. Há uma demanda, sim, e bem expressiva, de pessoas sedentas por saber mais sobre literatura e sobre os autores. E vejo que cada dia que passa as pessoas lêem mais, muito embora vivamos numa sociedade altamente midiática, muito audiovisual, voltada para o entretenimento¨, diz Borges.
O produtor e empresário lembra com detalhes as dificuldades que enfrentou nos primeiros seis anos de existência. ¨Lembro perfeitamente da primeira passagem aérea de um escritor que paguei: dividi o valor em 17 prestações, que custei a pagar. Logo depois, o projeto foi crescendo, atraindo a atenção de empresários que se sensibilizaram com a causa. Hoje, quando olho para trás e vejo tudo o que passamos, tem horas que é inacreditável¨, conta.
Borges enfatiza que a área literária ainda carece de uma atenção maior na produção cultural, ao contrário do que ocorre nas áreas de shows e peças teatrais, por exemplo. ¨?? muito importante esse olho-no-olho entre autor e leitor. De uma certa forma, acontece uma transformação que toca ambos os lados de forma impressionante. Já recebi e-mails e cartas de gente de todo o País que conta que o projeto foi um ponto crucial em suas vidas¨, diz o empresário.
E cita como exemplo o caso de uma professora primária, que durante uma palestra de Zuenir Ventura, em 1989, ficou tocada pela fala dele, que destacava que apesar de todos os empecilhos financeiros era fundamental que as pessoas buscassem se aprimorar. A partir daí ela fez faculdade, depois pós-graduação, mestrado e doutorado. ¨Ela me escreveu ano passado para dizer que precisava ouvir aquele estímulo, uma espécie de insight, que mudou radicalmente sua vida profissional, cultural e financeira¨, enfatiza Afonso.
RINC??ES
Além do caráter didático, hoje o projeto é levado a vários Estados e cidades do Brasil: são sete cidades (as capitais Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Curitiba, Brasília, e ainda Nova Lima, Itabirito e Ouro Branco), mais o projeto itinerante pelo interior do Paraná. ¨Só na semana passada, mais de mil pessoas se aglomeraram sob uma tenda para ver a palestra do contador de histórias Roberto Carlos Ramos.¨
Há também um forte cunho social no projeto já que todas as sessões realizadas no interior culminam na doação de 100 novos livros ? biblioteca local, além do sorteio de vários exemplares entre a platéia. Acostumado a lidar e a conviver com a poesia, Afonso Borges inspira-se para definir a importância dos livros na formação das pessoas. Para ele, a boa literatura e as produções de qualidade, ¨que por uma sorte maravilhosa temos a grande honra de ter vários expoentes brasileiros¨, são imprescindíveis na vida de uma pessoa.
¨A literatura educa e forma de maneira inigualável. Não consigo imaginar uma pessoa que nunca leu um livro. Quando ouço alguém dizer que se educa só por meio do audiovisual, do que é palatável e altamente de massa, como os filmes blockbuster, fico intrigado. Afinal, imagino a falta que faz as fibras da literatura no coração dessas pessoas¨, filosofa. Afonso Borges também estuda um projeto de transmissão de know-how do Sempre Um Papo a outros produtores de vários Estados do Brasil. ¨?? muito importante levar a literatura a todos os rincões deste País¨, destaca.
Para celebrar as duas décadas do projeto, esta semana será colocado no ar o novo site, que também inaugura a nova identidade visual do Sempre um Papo. Os próximos dois eventos do projeto trazem convidados internacionais, com a participação de escritores norte-americanos que estão marcados para amanhã, com o lançamento de Jesus, O Maior Psicólogo Que Já Existiu, de Mark Baker; e quarta-feira, dia 15, com Mais Platão, Menos Prozac, de Lou Marinoff. No dia 20 de março é vez De Paixão e de Cegueira, de Clara Feldmam, e no dia 21 com Frei Betto, lançando A Mosca Azul.