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Fólio, em Óbidos, recebe 5 edições do Sempre um Papo em outubro

20 de setembro de 2019

Sempre um Papo realiza cinco edições no Fólio – Festival Internacional de Óbidos

O projeto Sempre um Papo vai se realizar dentro de um dos mais importante festivais de Portugal, o Fólio – Festival Internacional de Óbidos, evento que começa no próximo dia 10 e segue até 20 de outubro. No dia 10/10, 5a-feira, o “Sempre Um Papo” abre o evento, às 17h30, com o diretor regional do Sesc SP, Danilo Miranda, que falará sobre seu trabalho frente ao Sesc, sua formação e trajetória. Segue-se mais quatro edições do Sempre um Papo: no dia 15, às 18h, com Simone Paulino, que apresenta seu livro “Abraços Negados em Retratos” (Ed. Nós) e às 19h30, com Barbara Paz, que lançará o livro “Mr. Babenco: Solilóquio a Dois Sem Um (Ed. Nós). No dia 18, às 19h, o bate-papo será com Márcia Tiburi, que lança a obra “Quatro Passos Sobre o Vazio” (Ed.Nós) , e no dia 20, às 16h30, o entrevistado será Valter Hugo Mãe, falando sobre sua trajetória na literatura. Todos os diálogos serão mediados por Afonso Borges, idealizador do Sempre Um Papo. A programação completa do Festival está no site www.foliofestival.com

Barbara Paz – “Mr. Babenco: Solilóquio a Dois Sem Um”
Enquanto Hector Babenco e Bárbara Paz captavam cenas para um documentário, gravavam também suas conversas, permeadas por inquietações, memórias e “todo o lirismo com o qual Héctor regeu a vida”. Desse material afetivo, surgiu a gênese de “Mr. Babenco: Solilóquio a Dois Sem Um”. Um livro de memórias dos últimos anos de vida do cineasta Hector Babenco (1946-2016), com alguns registros fotográficos, passando por histórias de sua infância na Argentina, seus poemas de adolescência (em Espanhol e em Português), a descoberta do primeiro câncer e questionamentos sobre a vida e a morte, além de comentários sobre sua obra cinematográfica e seus bastidores. Livro e documentário são duas obras de arte complementares, que evocam, ao mesmo tempo, o deixar de existir e a vontade do cineasta de continuar a viver para nunca parar de filmar. Solilóquio a dois sem um é uma espécie de poema de amor, de Bárbara Paz para Hector Babenco.

Simone Paulino – “Abraços Negados em Retratos”
Texto de João Carrascoza
De um lado, uma mulher viaja num trem rumo a Paris, onde vai dar uma conferência na Sorbonne, e se recorda da menina que a gerou. Do outro, uma menina parte de seu presente para encontrar a mulher que ela se tornou. As duas histórias deste livro comovente de Simone Paulino, vão se cruzar pelas mãos do leitor que, não sem surpresa, descobrirá o que une ambas, a mulher-menina de “Em retratos” e a menina-mulher de “Abraços negados”. Na primeira narrativa, temos um álbum que represa, em suas “fotos”, instantes de luz e sombra de uma vida, plasmado na arquitetura dos vitrais (que só existe pela junção dos cacos). Se “o menino é o pai do homem”, como disse Machado de Assis, aqui a menina (lembrada) é a mãe da mulher (que lembra). Mas não basta aquela gerar essa – como afirmou outra Simone (a de Beauvoir), é preciso se fazer mulher (o que é sempre prova de resistência). Na segunda história, as reminiscências saem do 3×4 e assumem a visada da mulher já no mundo adulto, em fragmentos maiores, que registram ausências tão dolorosas quanto as presenças, pois essas, embora amadas, são testemunhas dos afagos suspensos. O chão, as cores e as perdas na infância ganham beleza pelo líquido revelador (a escrita afetiva) de Simone Paulino. Ao fim, o leitor compreenderá por que na confluência da latitude (uma história) com a longitude (a outra história), irrompe uma margarida supra-literária – irmã daquela que brotou, entre as gretas do asfalto, nos versos drummondianos de “A flor e a náusea”.

Marcia Tiburi – “Quatro Passos Sobre o Vazio”
Seria reducionista afirmar que as breves narrativas de “Quatro passos sobre o vazio” representam distopias do século XXI – com possíveis desdobramentos tecnológicos e violências consequentes – permeadas por intertextualidades shakespearianas; talvez seja, esse, apenas o palco (ou o fundo da tela) para que Marcia Tiburi coloque em cena (ou delineie em tintas) sua potência criativa, mesclando ficção e filosofia.

Para Tiburi, o ponto de partida foi um desenho, reproduzido nesta edição, que a autora elaborou buscando compreender as comparações freudianas entre as figuras de Édipo e Hamlet. E somos introduzidos, logo no início, ao Projeto para o Psicomapeamento de Hamlet. É um projeto que propõe a “melhoria da raça humana”, que – em tese, pois somente se revela, revela?, a primeira pessoa de um dos funcionários do laboratório – aplica dispositivos robóticos rumo à certa perfeição subserviente.

Incógnita, a cartografia; impreciso, o tempo.Métodos. Regras. Relatórios. Refletidos, pela estética seca, insólita, no estilo do texto. E na solitude dos personagens que, nele, vão surgindo feito interrogações. Em Quatro passos sobre o vazio, o sentimento que você, leitora, você, leitor, conhece por “amor” não recebe mais tal denominação. Não recebe denominação alguma. A palavra “amor” é “praticamente uma senha”, mas vazia de conteúdo.

O que – para além de Shakespeare e Freud – pode remeter a Ludwig Wittgenstein [Tractatus Logico-Philosophicus]: “Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo.” O que pode remeter a George Orwell [1984]: “As vantagens imediatas de falsificar o passado eram óbvias, mas a verdadeira razão era misteriosa.”

Não seria reducionista afirmar que são misteriosas – bem como a sociedade que ensaiam (ou esboçam) –, as quatro narrativas, entrelaçadas, de Marcia Tiburi; talvez uma das respostas, caso existam respostas, uma das chaves, encontre-se absconsa no próprio livro: “A literatura sabe muito antes aquilo que a ciência demora séculos para provar.”

Serviço: Sempre Um Papo no Fólio – Festival Internacional de Óbidos
De 10 a 20 de outubro de 2019
Informações: www.folio.com

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